O JornalDentistry em 2017-9-24

CRÓNICA

Mãos Lavadas

Duração total do procedimento: 40 a 60 segundos. Molhe as mãos com água. Aplique sabão suficiente para cobrir todas as superfícies das mãos. Esfregue as palmas das mãos uma na outra. Palma direita sobre o dorso esquerdo com os dedos entrelaçados e vice-versa. Palma com palma, com os dedos entrelaçados.

Parte de trás dos dedos nas palmas opostas com os dedos entrelaçados. Esfregue o polegar esquerdo em sentido rotativo, entrelaçado na palma direita e vice-versa. Esfregue rotativamente para trás e para a frente os dedos da mão direita na palma da mão esquerda e vice-versa. Enxague as mãos com água. Seque as mãos com toalhete descartável. Utilize o toalhete para fechar a torneira se esta for de comando manual. Agora as suas mãos estão limpas e seguras. Além de intuitivo, o protocolo parece óbvio. Lavar corretamente as mãos pode reduzir o contágio de doenças, assim como prevenir infeções. 
Foi apenas no século XIX que se deram os avanços necessários que permitiram alargar os horizontes da prática médica e cirúrgica que se conhece hoje em dia. A febre puerperal foi o nome atribuído a uma doença que ocorria nas maternidades responsável por infeções disseminadas e morte de milhares de mães e crianças. O termo descrevia a fase em que a enfermidade ocorria: o “puerpério” - o período logo após o parto, caraterizado por febre, alucinações e dores intensas. Era uma doença conhecida desde a Antiguidade. Contudo, aumentou significativamente a partir do século XVII. Por coincidência, foi nessa época que os médicos começaram a dedicar-se aos cuidados de parto, procedimento que até então era acompanhado apenas por parteiras. Desde mudanças atmosféricas e cósmico-telúricas até impreparação dos médicos ou explicações psicológicas, a etiologia permanecia desconhecida. Isto impedia qualquer medida profilática. Como sempre, a simplicidade é a máxima sofisticação. Em Boston, o médico e poeta Oliver Wendell Holmes insistia que as mulheres em trabalho de parto nunca deveriam ser vistas por médicos que teriam acabado de realizar examinações post-mortem. Aproximadamente na mesma altura, em Viena, Semmelweis notou que a incidência de infeções era maior nas enferma- rias adjacentes às salas de dissecção e menores naquelas em que as parteiras cumpriam uma série de regras de higiene pessoal. Após a aplicação destas medidas de higiene, que incluíam a simples prática de lavar as mãos, a mortalidade decresceu precipitadamente. 
Este conceito de que uma terceira pessoa, tal como um médico ou uma enfermeira, poderiam ser os agentes responsáveis pela propagação de infeções e que os cuidados de higiene mais simples poderiam preveni-la foi uma ideia revolucionária. O resultado foi hostilidades e oposições violentas por parte dos seus colegas, levando inclusivamente à insanidade e morte de Semmelweis. 
Apenas duas décadas e milhares de mortes mais tarde, Joseph Lister desenvolveu, em Glasgow, um protocolo de higiene pessoal e limpeza dos instrumentos entre cirurgias que diminuía a incidência de infeções pós-operatórias. 
Nos dias de hoje, toma-se por garantido o lavatório ou o autoclave que existe em cada gabinete ou clínica. Nesse sentido, pode ser útil lembrar esta história entre consultas 

Texto: Fernando Arrobas, médico dentista  -   fernando.arrobas@jornaldentistry.pt 

 Ilustração: Diogo Costa    -   dcosta_4@msn.com

 

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