O JornalDentistry em 2018-4-13

CRÓNICA

Questões de terminologia médica: Doente ou paciente?

A cárie é uma doença multifatorial e, de acordo com a designação da Organização Mundial de Saúde (OMS), trata-se de “um processo patológico localizado, de origem externa, que se inicia depois da erupção dentária, determina um amolecimento do tecido duro do dente e evolui até à formação de uma cavidade”.

Apesar de se tratar de uma doença, que pode até resultar em fortes agudizações e ter consequências na qualidade de vida de crianças e adultos, é compreensível que não se designe por “doente” alguém que vai visitar o médico dentista para realizar o tratamento da mesma. No entanto, não é exatamente daí que deriva o termo “paciente”. 
Como definição, paciente tem origem no latim pati e no grego pathe, que significa “sofrer” ou “aguentar”, e deriva do adjetivo que se refere ao indivíduo que tem paciência. De facto, a boa medicina, por vezes, deve utilizar a espera como meio auxiliar para que se eliminem variáveis e surjam novos sinais e sintomas para que se obtenha um diagnóstico correto e definitivo de uma determinada condição. Isto acontece, por exemplo, nas consultas de pós- -inserção de próteses removíveis, em que se torna necessário esperar para identificar onde as novas próteses criam úlceras para que se realizem os ajustes necessários. Adicionalmente, aquele que previne e se desloca até às consultas para realizar observação de rotina, destartarização ou radiografias de controlo encontra-se também no estado de esperar encontrar alguma condição para que possa ser tratada atempadamente e com um custo económico mais favorável. 
Já a palavra doente vem do latim dolente, aquele que sofre dor. Na antiga Roma, podia ser designado também por infirmus, que dá origem ao português enfermo, que significa fraco, sem firmeza e que não consegue ficar em pé, o que pode acontecer com determinadas patologias orais, infeções de origem odontogénica ou após cirurgias complicadas. 
É também interessante notar que as gerações médicas mais antigas utilizem com 
frequência o termo “doente” e as mais recentes utilizem “paciente”. Isto acontece devido à literatura científica. Enquanto que no passado a maioria dos tratados de medicina eram de origem francesa, onde se lia sobre “les malades”, hoje em dia grande parte das leituras são de origem anglo-saxónica sobre o “patient” ou mesmo traduções luso-brasileiras dessas obras, onde a figura central é o “paciente”, e daí a influência na linguagem corrente. 
Nas antípodas destas duas opções, encontra-se a utilização do termo “cliente”, o qual se tem tornado mais recorrente do que o desejado. Se, por um lado, visa afastar qualquer conexão com a doença e reconhece a liberdade, o respeito e a autonomia do sujeito, que escolhe quem o deve tratar e sabe o que é melhor para ele, pode, por outro, tornar a relação terapêutica numa relação comercial com todos os aspetos negativos daí decorrentes. 
Desta reflexão advém que a grande questão, sempre mais do que terminológica, reside na atitude através da qual as PESSOAS são encaradas pelo médico dentista. No fim do dia, é a ética aquando da influência momentânea sobre a saúde e história de vida daquela PESSOA que faz chegar a casa com um sorriso e permite dormir descansado, para que no dia seguinte se possa continuar. 

Autor: Fernando Arrobas, médico dentista 
fernando.arrobas@jornaldentistry.pt 

Crónica  publicada na edição impressa e digital do "O JornalDentistry de abril de 2018

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