O JonalDentistry em 2020-2-18

CONVIDADO

A indelével marca "Suíça"

Paisagens de cortar a respiração, montanhas colossais, lagos de água límpida e uma calma e tranquilidade quase bucólica. Esta é a apaixonante Suíça!

Ricardo Sousa Dias

Surpreendente para um jovem médico dentista vindo do “Sul” é ver que um doente após terminar a sua consulta de higiene oral marca uma consulta para o ano seguinte. Passado um ano, lá está o doente, cinco minutos antes da hora prevista.
Não menos surpreendente é assistir à fidelidade dos doentes e da sua família ao seu médico dentista (ver registos clínicos e “bite-wings”) com intervalos regulares de três anos e com 20/30 anos de “recall”, ver o respeito dos  doentes pela figura do medico dentista, ver trabalhos de prótese fixa e removível com 30/40 anos que não cederam aos ciclos mastigatórios de um “fondue” ou de uma “raclette”.
Admirável é também o profissionalismo dos técnicos de prótese dentária que tratam os trabalhos com um brio exemplar e cumprem à risca as datas e horários estabeleci- dos. Na clínica, não menos preciosa é a ajuda das assistentes dentárias que após três anos de formação profissional, desempenham a sua função com enorme competência.
Sobejamente conhecida pela sua tradição relojoeira, o “tempo” está profundamente enraizado no dia-a-dia dos suíços. O doente não se atrasa (se acontecer ou faltar o médico dentista pode faturar) e o médico dentista também não deve, o que pode tornar aquele que é por norma um dia calmo, num dia extremamente stressante.
Também o tarifário e os honorários do médico dentista foram estimados em função do tempo necessário para executar o ato clínico corretamente. Assim, se uma restauração precisar de uma hora de trabalho para conseguir um bom isolamento, uma boa cavidade, um bom sistema adesivo, uma boa morfologia, um ponto de contacto forte e uma boa oclusão, esta pode custar facilmente ao doente um ordena- do mínimo português.
Na Suíça onde a democracia é direta, o combate contra as seguradoras tem sido feroz, mas tem vindo a ser ganho pelos médicos dentistas que têm feito um trabalho incansável na informação da população. Nas diversas votações/ referendos cantonais os médicos dentistas têm levado a melhor. E todos, dentistas e doentes, ganham com isso.
O civismo e o respeito imperam, e as clínicas partilham entre si ao longo do ano um serviço de urgência 24h. Sem- pre que uma doente minha tiver com dor ou sofrer um traumatismo ao domingo será vista pelo meu colega que se encontra de urgência na sua clínica, e este fará o mínimo necessário ou resolver o problema de imediato. Na segunda feira a minha paciente ligará (sim... porque os pacientes não “dão à costa”) a marcar consulta para a continuação do tratamento e virá acompanhada de um pequeno relatório do meu colega.
 

Mas nem tudo é chocolate...
A Suíça é um pais fortemente multicultural e longe das suas capitais cosmopolitas e financeiras, onde o dinheiro parece prosperar em abundância, começam a existir nas populações de zonas mais campestres e fabris algumas dificuldades económicas que têm acompanhado as crises cíclicas do sector relojoeiro. Para as pessoas com dificuldades económicas o estado comparticipa os tratamentos dentários. Mediante o orçamento do cantão e a aprovação do plano de tratamento pelo médico dentista cantonal e normalmente só são aceites tratamentos mais simples e económicos.
Devido ao protecionismo e conservadorismo de tudo o que a marca suíça representa, também o médico dentista que vem de fora é “posto à prova” quando sai fora da esfera das clínicas de grupo (sim... porque também as há na Suíça) e entra no mundo das clínicas mais elitistas e privadas. “Por- que nós em Genebra...” “porque o professor Buser disse...”. Talvez o excesso de “quadradismo” seja o maior defeito do típico médico dentista suíço.
Ao contrário do seu canivete, os suíços estão normalmente talhados para fazer apenas uma função, fazem-na sem dúvida com enorme eficiência, mas para um português habituado a fazer muito com pouco e mestre na arte do “desenrascanço” pode ser por vezes um pouco irritante.
Triste é saber por um jovem colega médico dentista formado na mítica universidade de Berna que nos corredores se diferencia a “cárie portuguesa” perfurante e profunda e a “cárie suíça” que se fica pelo esmalte ou perfura ligeiramente a dentina. Mas é fruto da cultura e do investimento na prevenção que tem sido feito.
Para o médico dentista repleto de ímpeto e vontade de fazer grandes trabalhos estéticos e grandes reabilitações totais, trabalhar na Suíça pode não ser aliciante o suficiente. Os doentes dão primazia à função (e bem) em  detrimento da estética. Tratamento conservadores, substituição de amálgamas e implantes unitários são os tratamentos mais comuns.
Acredito que na atual conjuntura da medicina dentária em Portugal ainda exista espaço para quem quer trabalhar com qualidade, precisão e método. É por isso, e não só, que está na hora de regressar.


Ricardo Sousa DiasMestrado Integrado em Medicina Dentaria pela Universidade Católica Portuguesa - Viseu em 2010. Diploma universitário em dentisteria adesiva estética pela Universidade de Paris V, França. Pós-graduação em Implantologia Oral pela Universidade de Gent, Bélgica. Formação continua pelas Universidade de Genebra e Berna, Suíça. Curso de Periodontologia Clínica. ITI. Prof Célia Coutinho Alves. Porto, Portugal Membro ITI.

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OJD 74 JUNHO 2020

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