O JornalDentistry em 2019-12-19

CONVIDADO

Os cuidadores informais na economia

É um um facto conhecido por todos que o mundo está a envelhecer e a passar por drásticas transformações demográficas. Até ao século XIX, os idosos eram apenas uma pequena parte da população, nunca maior do que 5% em cada país.

Pedro Lopes Ferreira

Atualmente, nos países desenvolvidos, é um estrato que representa mais de 20% da população. A este respeito, o Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas estima que entre 2017 e 2050, praticamente todos os países terão um aumento substancial da população idosa.
A título de exemplo, os indivíduos com 60 ou mais anos passaram de 382 milhões em
1980 para 962 milhões em 2017 e espera-se que atinjam os 2,1 mil milhões em 2050. Do mesmo modo, os indivíduos com 80 ou mais anos deverão passar de 137 milhões em 2017 para 425 milhões em 2050. Segundo a mesma fonte, em 2030 espera-se que os idosos excedam o número de crianças com menos de 10 anos (1,41 mil milhões vs. 1,35 mil milhões) e em 2050 esperam-se mais idosos do que adolescentes e jovens entre os 10-24 anos (2,1 mil milhões vs. 2,0 mil milhões).
Portugal não é certamente uma exceção. Somos um país envelhecido e o aumento do
número de idosos é significativo. Em 2017 éramos o país do mundo com a quarta maior percentagem de pessoas com 60 ou mais anos (27,9%) e, em 2050, prevê-se que ocupemos a terceira posição com 41,7% de idosos. Além disso, o Instituto Nacional de Estatística (INE) prevê que, entre 2015 e 2080, Portugal perca população, passando dos atuais 10,3 milhões de pessoas para 7,5 milhões.
Consequentemente, o número de idosos passará de 2,1 para 2,8 milhões, com um índice de envelhecimento a estabilizar só a partir de 2060, quando as gerações nascidas num contexto de fecundidade abaixo do limiar de substituição das gerações já se encontrarem neste grupo etário. Verifica-se também uma redução da população em idade ativa, das mulheres em idade fértil e um aumento de pessoas com doenças crónicas e dependentes, o que implica a necessidade de recorrer a prestadores de cuidados, nomeadamente cuidadores informais.
De facto, esta necessidade de cuidados pode ser medida pela esperança de vida saudável, indicando se os ganhos em esperança de vida são vividos em boa saúde ou com problemas e limitações de saúde. Em média, nos países da UE, os cidadãos podem esperar viver cerca de 80% das suas vidas livres de incapacidade. Esta proporção é menor nas mulheres (77%) do que nos homens (81%) pois, além de viverem menos anos, reportam normalmente mais limitações da sua atividade. Em Portugal, as mulheres vivem 32% das suas vidas com limitações de atividade e os homens 23%, os valores mais altos da UE.
Os cuidadores informais são os primeiros responsáveis pela saúde dos dependentes, sendo ainda parceiros quase invisíveis para os serviços de saúde, embora este apoio possa ter várias formas e nem todas necessariamente relacionadas com a saúde. Os cuidados pessoais incluem também ajudar a vestir, a alimentar-se, lavar-se e outras atividades físicas.

Por outro lado, o apoio dos cuidadores informais não se limita à população idosa. Outros grupos etários deverão estar também abrangidos neste conceito de cuidados informais, o que aumenta necessariamente os valores da prevalência deste problema na sociedade e nos leva a uma definição bem mais compreensiva de cuidador informal. Além disto, a lógica inter-geracional de apoio alarga este apoio informal a indivíduos da rede social como a vizinhos.
Ser cuidador informal está associado a um grande desgaste físico, emocional e social,
embora sejam inúmeros os relatos de gratificação e de significância do ato de cuidar, que não deixa de ser uma fonte de satisfação, amor e aprendizagem.
Ora, é sabido que os fatores demográficos, económicos e sociais provocam um efeito enorme na disponibilidade de cuidadores informais. Além disto, os fenómenos migratórios e o aumento de divórcios e separações fazem aumentar, em muitos países, a probabilidade de se viver só. Por outro lado, à medida que as mulheres se inserem no mercado de trabalho ou os familiares vivem afastados, um doente idoso vê-se na necessidade de confiar em outro idoso ou num jovem como cuidador informal. As identidades dos cuidadores resultam, portanto, da sua história pessoal e do contexto social e cultural em que se encontram. É interessante aqui salientar que Portugal é o país europeu em que mais filhos adultos reconhecem ser seu dever tratar dos seus mais velhos.
Em conclusão, os governos dos vários países, devem reestruturar o seu sistema de saúde, tendo em atenção que, nas próximas décadas, o envelhecimento global da população irá afetar todas as dimensões da vida económica, social e política, alterando a forma da família e a própria ordem geopolítica. Vai ser colocada em questão a capacidade das sociedades em
fornecer um nível decente de vida aos seus mais velhos e dependentes, sem impor um fardo demasiado aos mais jovens e saudáveis.
Estaremos nós, como sociedade, preparados para enfrentar este desafio?
Torna-se urgente o desenvolvimento de políticas inovadoras e serviços públicos personalizados para a pessoa idosa e dependente, incluindo medidas direcionadas para a habitação, o emprego, a assistência médica, as infraestruturas, a proteção social, entre outras.
Muito caminho há ainda que andar para que a UE e Portugal deem uma importância aos indicadores sociais semelhante à que dão presentemente aos indicadores financeiros.


 Pedro Lopes Ferreira  -  Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor do Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra

www.uc.pt/feuc/pedrof

 

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OJD 68 DEZEMBRO 2019

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