O JornalDentistry em 2018-5-29

CRÓNICA

Os dentes de ouro de Humberto Delgado

Um dos nomes mais incontornáveis das comemorações do 25 de Abril em Portugal é o de Humberto Delgado, o célebre autor da frase “Obviamente demito-o”, referindo-se a Salazar, caso vencesse as eleições presidenciais de 1958.

Em toda a terra portuguesa encontram-se referências a esta figura emblemática. No entanto, é mesmo aqui ao lado, na vizinha Espanha, que se encontra talvez a mais comovente história a seu respeito. 
Embora se encontrasse exilado, primeiro no Brasil e depois em Argel, o General Humberto Delgado continuava ligado à realidade da sociedade portuguesa e a procurar denunciá-la. Participava em conferências, escrevia cartas às altas figuras mundiais, dava entrevistas, publicava artigos em jornais e, em 1962, depois de iludir a vigilância da polícia e entrar em território nacional disfarçado com um bigode postiço, chegou a liderar uma tentativa de golpe em Beja. Em fevereiro de 1965, acompanhado da sua secretária brasileira, entrou clandestinamente em Espanha, através de Marrocos. Convencido de que se iria encontrar com um coronel do exército que partilhava a sua causa anti salazarista, a verdade é que desde o dia 13 desse fatídico mês não se soube mais sobre o seu paradeiro. Havia caído na Operação Outono, uma cilada da PIDE que o fez conhecer o fim dos seus dias. 
Poucos meses depois, coincidência na data ou não, na tarde quente de 24 de abril de 1965, Filipe Porra, um jovem espanhol de quinze anos, andava de fisga na mão à caça de pássaros. De repente, encontrou uma cabeça em putrefação, que inicialmente pensou que seria de um animal morto. Porém, ainda apareceu outro cadáver e mais três provas indubitáveis de que se tratavam de dois corpos humanos em alto estado de decomposição, muito provavelmente pertencentes ao General Humberto Delgado e à jovem Arajaryr Campos, com apenas 34 anos: um sapato ortopédico, um anel com as iniciais HD e uma das cabeças continha dentes de ouro. “Se não fossem os dentes de ouro, teriam ficado aqui. Não se percebia que era uma pessoa”, sublinhou Filipe Porra, numa entrevista dada anos mais tarde no exato local onde os encontrou e que contempla uma homenagem à liberdade, desde o 40o aniversário da morte de Humberto Delgado. 
Apesar de o acórdão de julgamento referir que o crime terá ocorrido num local ermo perto da estrada principal que liga Badajoz a Olivença, os corpos acabaram por ser sepultados numa vala natural a cerca de seis quilómetros a sul de Villa Nueva del Fresno. A título de curiosidade, esta havia sido a cidade que, em 1643, aquando da Restauração da Independência, tinha chegado a ser designada por Vila Nova de Portugal. 
 
 
Autor: Fernando Arrobas, médico dentista

fernando.arrobas@jornaldentistry.pt

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OJD 53 JULHO de 2018

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