O JornalDentistry em 2022-2-20

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Crónica de Dr.João Pimenta: “Que destino ou maldição...”

Numa noite de insónia (cada vez mais frequentes) meti-me a pensar, mais uma vez, sobre as razões que levaram a medicina dentária a ser uma profissão de uma grande dignidade, mas globalmente pouco respeitada. O povo diz, e com razão, “ame para ser amado, e respeite para ser respeitado”.

Dr. João Pimenta, Académico Honorário da Academia Brasileira de Odontologia.

Em primeiro lugar, e para que fique bem claro, nada tenho contra os grandes grupos de clínicas dentárias. Conheço bem as lógicas de um mercado que é, na sua essência liberal, e aceito que nessa mesma lógica haja relações de trabalho que são muito reguladas pela oferta/procura. É assim em todas as profissões, e entendo que um médico dentista não é obrigado a aceitar condições menos boas só porque não tem alternativa. Temos definitivamente de encarar a Europa como “o nosso mercado” e deixar de falar de emigração se vamos trabalhar para França ou para a Holanda. Porque senão teríamos de falar o mesmo se nos deslocássemos do Porto para Faro para exercer a profissão. A nossa zona “de mercado” é a Europa e é aí que nos devemos deslocar, sempre encarando a instabilidade como fator de crescimento pessoal e profissional. No dia em que procurarmos um emprego “para a vida” estaremos a cavar a “nossa sepultura” e a armar uma teia de onde dificilmente poderemos sair. 

O número excessivo de médicos dentistas, que acabam os seus cursos com uma preparação mais que deficiente, ajuda a que os salários possam não ser os desejáveis. 

Podem argumentar que a preparação em Portugal é muito boa, que os médicos dentistas são bem recebidos “lá fora” e blablabla... Todos nós sabemos que assim não é, tendo o famoso “processo de bolonha” contribuindo para uma mediocridade crescente. Acabar um curso com uma componente prática fundamental com duas ou três extrações feitas, uma endodontia e nenhuma prótese fixa realizada devia envergonhar as instituições de ensino e alguns dos seus professores, que tinham a obrigação de ensinar. E sobretudo ao ensinar (se o fizerem) ter sempre em mente o que disse Ortega e Gasset: “se ensinares, ensina ao mesmo tempo a duvidar daquilo que estás a ensinar”. Só assim avançaremos; só assim evoluiremos. 

Já o escrevi várias vezes e repito: não haver, por exemplo, uma disciplina de implantologia nos cursos de medicina dentária dá-me nojo, já que é, neste momento tão ou mais importante que a prótese fixa. 

Temos então actualmente um excesso de profissionais, com uma formação básica deficiente.
E qual a solução?...
Em primeiro lugar urge reestruturar os cursos, colocar clínicos competentes a ensinar clínica, a “sentar o cu no mocho”, e não “vomitadores de papers”, muitas vezes sem qualquer interesse prático. Pela enésima vez escrevo: faz algum sentido um Manuel Neves, um Pedro Couto Viana, um João Desport, uma Raquel Zita e tantos outros, não estarem ligados às Faculdades a ensinar clínica? Que País é este que menospreza profissionais que entrariam em qualquer instituição mundial, em detrimento muitas vezes de alguns medíocres que só por terem feito um doutoramento ocupam esses postos? 

Urge reformar o ensino dando-lhe prestígio e competências. Profissionais bem preparados serão mais bem aceites e melhor pagos. Todos ganharão; entidades empregadoras e profissionais. 

A possível abertura de novas Faculdades de medicina dentária em Portugal não são, em princípio desejáveis e merecem, tam- bém em princípio, o nosso repúdio e não aceitação. Agora imaginemos que terão um corpo docente extraordinário, com uma mis- tura de grandes clínicos e doutorados de nível que proporcionarão aos seus alunos uma formação diferenciada, com uma prática pelo menos similar à do meu tempo; estes fatores podem rapidamente levá-las a adquirir um prestígio e uma procura grandes. 

Podemos assistir, com o decorrer do tempo (que pode ser breve) ao fecho de instituições mais clássicas por falta de procura. O que é desejável segundo a minha opinião, poupando-se dinheiro ao erário público, e não continuando essa formação deficiente e muitas vezes “fora de moda”. 

Abro aqui um parêntese para elogiar publicamente o trabalho de Gil Alcoforado na “Egas Moniz”. Alguns cursos de mestrado e pós-graduação, em que também houve contratação de docentes clínicos “de fora da casa” para complementar a formação, têm adquirido um prestígio nacional e internacional que merecem o nosso público elogio e vénia. Esse é o caminho certo... Gil Alcoforado “tem mundo” que falta muito a gente de horizontes curtos e mentes “pequeninas”. 

Haverá solução para toda esta problemática? Ou caímos, como no fado e neste sentimento tão português, no “destino e maldição” sem saída? 

Claro que há solução, se quisermos ou quiserem alguns...
Em primeiro lugar há que olhar para o que está mal. Aceitar, refletir, encontrar soluções... corrigir.
Isso implica humildade e autocrítica. O que não é muito habitual em pessoas com a terrível doença da “professorite aguda”. Mas há que ter esperança; ou então alguém com pulso e que mande, obrigando à mudança e a alterações que podem ser dolorosas, mas desejáveis. 

Em segundo lugar seria bom que nas entradas das instituições de ensino estivesse escrito a frase de Eça de Queirós: “Para ensinar há uma formalidadezinha a cumprir — saber.” 

E já agora na saída a frase de santo Agostinho que diz:
“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado...
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado...
E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

PS: Tenho como amigos excelentes professores de medicina dentária...gente que sabe fazer e sabe ensinar a fazer...infelizmente são, segundo a minha opinião, muito poucos...desculpem a franqueza... 


 

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