O JornalDentistry em 2022-3-23

CONVIDADO

Ser mulher no século XXI

Olho para o passado e para o presente das mulheres ocidentais na pessoa da minha avó de 96 anos: senhora de energia infindável, matriarca de uma grande família, com uma capacidade enorme de adaptação a todas as mudanças que aconteceram ao longo do tempo.

Mariana Dolores, Presidente da Direção na Mundo A Sorrir.

 Foi educada em casa pelos pais e por professoras particulares (amigas dos pais); já tarde, teve oportunidade de votar, o que considera ser uma “grande diferença na vida das mulheres”. Tradicional como é, viveu sempre para a família e para o marido, que perdeu há 25 anos. Nunca teve um trabalho remunerado, mas fazia voluntariado na igreja para “ajudar quem precisava”.
Conversar com ela é uma aprendizagem de vida sobre tudo o que é o empoderamento feminino, sobre as diferentes oportunidades de ontem e de hoje, sobre o que está certo hoje e estava errado no passado e sobre o que estava certo no passado e hoje está errado. Atualmente, vai todas as quintas-feiras almoçar com as amigas; vê as netas a estudarem em escolas mistas, a irem para a faculdade, a votarem desde cedo, a emigrarem, a viajarem sozinhas ou acompanhadas (como bem lhes apetecer), a serem financeiramente autónomas, a terem uma opinião sobre todos os assuntos e manifestarem essa mesma opinião, sem medo. No fundo, vê as mulheres da sua vida a serem senhoras de si. Infelizmente, as oportunidades são diferentes para umas e para outras.
Olho para as mulheres a viverem no século XXI e vejo empoderamento, vejo educação, vejo novas oportunidades. Hoje, as mulheres exercem cargos de liderança, cargos políticos; um pouco por todo o mundo temos exemplos de mulheres que governam países, lideram grandes empresas e influenciam políticas mundiais. As mulheres são ativistas que mudam realidades e dão oportunidades melhores a outras mulheres, são exemplos de boas práticas, são empreendedoras, são inovadoras, são cientistas que descobrem curas e salvam milhões de vida, para além das suas responsabilidades familiares. São mulheres do século XXI e são senhoras de si.
No entanto, também vejo desigualdades imensas: - Em vários países as mulheres ainda têm o acesso à educação negado; - O direito ao voto e exercer cargos políticos ainda não é uma realidade em algumas partes do mundo; - A pobreza potencia as desigualdades das mulheres no acesso à educação: segundo a diretora da Unesco, Audrey Azoulay, há 59 países onde as mulheres com idades entre os 15 e os 49 anos que pertencem a famílias mais pobres têm quatro vezes mais probabilidades de não saberem ler nem escrever do que as mulheres das famílias mais ricas; - A antiga submissão ao homem está presente ainda em muitas culturas e regiões do mundo, assim como o facto de que os homens ganham salários superiores às mulheres em funções similares; - Aproximadamente, 30% das mulheres mundiais são vítimas de violência doméstica. Segundo um estudo da Organização não governamental Save the children, 59% das mulheres indianas considera justificável ser agredida pelo marido.
Perante isto, tudo aquilo que eu vejo é que a mudança começou, mas que está longe de estar concluída. A violência/abuso contra as mulheres e as desigualdades de género são problemas culturais que constituem graves implicações para a sociedade. Estando diretamente relacionado com mentalidades e comportamentos, é possível que esta questão seja trabalhada junto das próprias mulheres, através de uma intervenção psicológica, socioeducativa e pedagógica. Educar para uma cidadania livre de estereótipos e preconceitos constitui um dos princípios fundamentais de uma Educação Democrática e nisso todos devemos acreditar. O direito à educação deveria ser universal, mas como já vimos não é e as mulheres são as últimas a aceder a esse direito. Considerado um problema de saúde pública preocupan-te, urge o empoderamento da mulher vítima de violência, o que representa um passo importante para a aquisição de conhecimentos diversos como os direitos globais das mulheres. Sem dúvida que o acesso à educação potencia sempre e sem exclusão, novas oportunidades a todos os níveis. Na Mundo A Sorrir sempre nos focámos nas desigualdades, sempre tentámos dar novas oportunidades a quem viu “a porta ser fechada” e muitas mulheres são já alvo desse apoio. Na Mundo A Sorrir uma percentagem significativa de voluntários e colaboradores é do sexo feminino pelo que os abusos a outras mulheres geram um desconforto e sensação de impotência enorme. Considerando as necessidades de muitas mulheres surge o projeto SER MULHER, um projeto de mulheres para mulheres!

O projeto SER MULHER foca-se na promoção do empoderamento das mulheres vítimas de violência/abuso, dando-lhes ferramentas para desenvolverem competências na resolução das suas necessidades, tais como o sentimento de responsabilidade, autonomia e tomada de decisão. Infelizmente, o projeto SER MULHER não abrange todas as mulheres do mundo a sofrer desigualdades. A minha avó já não terá a possibilidade de viver para ver acontecer uma verdadeira igualdade entre homens e mulheres, mas teve a oportunidade de ver a mudança começar no mundo e de ver as filhas, as netas e as bisnetas a terem uma vida cheia de novas e diferentes oportunidades. As mulheres são, sem dúvida, agentes de mudança num mundo em constan- te alteração e o papel que desempenham nas famílias, na sociedade e no mundo global não só não pode ser ignorado, como deve ser considerado parte fundamental e integral do desenvolvimento humano.

 

 

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