O JornalDentistry em 2021-1-21

CONVIDADO

Uma visão de esperança para o ensino da Medicina Dentária: O caminho da FMDUL no triénio 2021-202

2020 representou um ano indelével no exercício clínico e no ensino da medicina dentária. As dificuldades criadas pela crise pandémica fizeram emergir com determinação, responsabilidade e esclarecimento um notável exemplo de saúde pública por parte de toda a comunidade que compõe a equipa de saúde oral.

João Caramês, DMD, PhD, Professor Catedrático, Diretor da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa

Pela oportuna criação de um grupo de trabalho institucional congregador de conhecimento baseado na evidência e orientador de normas clínicas, ou simplesmente pelo espírito de dedicação, altruísmo e superação dos profissionais e estudantes de medicina dentária fomos conduzidos a um importante ajuste da nossa prática clínica. Se em 2020 o termo “resiliência” distinguiu a nossa postura reativa face à pandemia, 2021 deve colocar-nos perante uma postura proactiva, balanceando realismo e esperança!
Foi sob este mote que há poucos dias tive a honra de acolher a nomeação para Diretor da Faculdade de Medici- na Dentária da Universidade de Lisboa (FMDUL), por parte do Senhor Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor António Cruz Serra. Aceitei tão prestigiado desígnio na sequência de um longo e gratificante percurso de filiação à FMDUL. Foi em 1986 que, colhendo o exemplo inspirador e de excecional sapiência do Professor Doutor Simões dosSantos, iniciei a seu convite, colaboração como docente da ainda antiga Escola Superior de Medicina Dentária. Partindo do contributo humildemente prestado à FMDUL nos últimos trinta e cinco anos, procuro também hoje num cenário particularmente difícil, e em conjunto com uma nova equipa diretiva, um sentido altruísta de concretização e sucesso para o futuro da instituição. 

 É necessário honrar o passado para melhor perspetivar o futuro, ciente de que períodos de crise são também momentos de oportunidade! Recordo, por isso, que os 43 anos que compõem a história da FMDUL são sinónimo de um admirável percurso académico que muito tem contribuído para a diversidade técnica e científica da Universidade de Lisboa e acima de tudo para o enriquecimento da medicina dentária em Portugal. Desde a sua criação em 1975, a então Escola Superior de Medicina Dentária e mais tarde a Faculdade de Medicina Dentária assumem um papel pioneiro e de referência na formação pré-graduada e pós-graduada de médicos dentistas. Igualmente, e partilhando uma visão pioneira do conceito de saúde oral impulsionada pelo seu fundador, o Professor Doutor Simões dos Santos, a FMDUL contribui para a formação e diferenciação de diversos profissionais de saúde através dos Cursos de Higiene Oral e Técnicos Laboratoriais de Prótese. Este modelo é ainda único numa instituição pública portuguesa e tomado como exemplo a nível mundial. A este, acresce a relevância social para o país do singular funcionamento da consulta de pacientes com necessidades especiais. 

A linha cronológica que percorre a história da FMDUL é também atravessada por períodos delicados e difíceis. Ora motivados pela adaptação ao paradigma educativo gerado pelo processo de Bolonha ou por severas contingências orçamentais que ameaçaram o colapso financeiro da Faculdade. Em todos estes momentos, as dificuldades foram superadas a partir do capital humano. Pela capacidade de realização dos docentes e do pessoal não docente, pela dinâmica de investigadores em crescente progressão académica, pela motivação e ambição dos “nossos” alunos, e pelo sentido de firme liderança promovida pelas anteriores direções. 

Hoje, a FMDUL orgulha-se da excelência e diferenciação do seu corpo docente que permitiu consolidar e ampliar a sua oferta formativa dada por vários cursos pós graduados, em particular com o formato de especialização. A este respeito e como já pude escrever num editorial d’O Jornal Dentistry há três anos é “urgente” contribuir para a mudança do paradigma da formação em medicina dentária. Em consciência, as Universidades ou Escolas Superiores de Saúde habilitadas a conferir o Mestrado Integrado de Medicina Dentária deverão reconhecer o cenário de sub-empregabilidade em que colocam os seus alunos recém-formados e participar numa profícua solução a fim de inverter este ciclo. Acredito, que respeitar as diretivas da A3ES - Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, quanto ao número máximo de alunos inscritos e re-direcionar o espaço de formação pré-graduada para ampliar a formação pós-graduada, diversificando a sua oferta, ou alocar algum do atual numerus clausus especificamente para alunos internacionais que não pretendam exercer em Portugal, deverão ser metas a cumprir por todas as Instituições de ensino de medicina dentária num tempo mais próximo. 

A autonomia e sustentabilidade financeira das Faculdades de Medicina Dentária deverá cada vez mais pressupor a geração de receitas próprias e a captação de financiamento externo através do seu vetor Investigação. A este respeito destaco o reconhecimento de vários projetos com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) que muito contribuíram nos últimos dois anos para o desenvolvimento e alavancagem de laboratórios de investigação básica, potenciando a recém criada unidade de investigação LibPhys. Igualmente, foi desenvolvido um importante laboratório de tecnologias digitais, a Unidade DigiTech. 

Para os próximos três anos assumiu-se como prioridade: a criação de um gabinete de apoio à captação de financia- mento para investigação científica e a projetos de inovação pedagógica através da candidatura a fundos da União Euro- peia; a promoção de linhas de investigação translacional internas e integradas em consórcios com outras instituições públicas e privadas e a digitalização integral do acervo clínico da FMDUL para melhor fluidez do funcionamento das clínicas da FMDUL, tornando também possível projetos de investigação nas áreas de data science e big data. 

Prosseguir a estratégia de internacionalização dos cursos pós-graduados procurando o seu reconhecimento e acreditação no contexto Europeu ou fomentar a ampliação das parcerias no âmbito dos programas Erasmus e Erasmus + com instituições de reconhecida excelência académica e científica são também algumas das propostas contempladas no Programa de Ação da atual Direção da FMDUL. O tempo pre- sente não pode esperar senão um forte sentido de cooperação entre todos na FMDUL, sendo igualmente importante a partilha de um espírito de networking com outras Faculdades da Universidade de Lisboa ou restantes Faculda- des de Medicina Dentária do país. 

Em suma, sustentaremos a nossa atuação sob orientação de um modelo de gestão rigoroso e equilibrado, racionalizando custos, mas permitindo o justo e necessário investi- mento à contínua modernização da instituição. Encarar as dificuldades como desafios, dosear a ambição com sustentabilidade e procurar congregar o esforço e o mérito de todos os que compõem a comunidade da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa são princípios que pare- cem definir uma tríade segura e de sucesso. Por todos e com todos, zelaremos hoje e sempre pelo prestígio da FMDUL, honrando a sua nobre história. 

 

 

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OJD 81 FEVEREIRO 2021

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