JornalDentistry em 2026-6-20

EDITORIAL

O fenómeno do Turkishteeth

O junho é aquele mês em que já apetece desacelerar, mas ainda não podemos. Os feriados e os dias longos convidam a pôr a energia predominantemente no lazer. E na cabeça entoa a sensação de que já merecíamos aquelas férias que vemos outros gozar.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia.

Mas a época letiva ainda não acabou. Ainda há aulas, cursos e congressos. Os últimos antes do verão. Quem tem aulas, ainda tem exames para fazer. Quem dá aulas,ainda tem exames para corrigir.

E tenta-se, ainda, encaixar aquele último esforço da data para finalizar o artigo, o contrato, o trabalho antes de ir
oficialmente de férias.

Mas, nas semanas dos feriados, o ritmo abranda mesmo. Os e-mails de trabalho já não chegam à mesma velocidade e o telefone já não toca com o mesmo ritmo. “Está tudo no algarve!” – diz-se aqui mais para o Norte.

As greves juntam-se aos feriados e as pontes passam a ser normais. A produtividade diminui. O trabalho fica empancado. Não falo só da medicina dentária, mas de muitos serviços que já não decidem nada antes do verão.

Quando estudei nos EUA, explicaram-me que lá não se para nos meses de verão. Os americanos não param a produção/produtividade nos meses de verão. Vão parando ao longo do ano. Não quero com isto dizer que eles é que estão certos ou errados. Estou só a constatar um facto. Há até quem, na medicina dentária, produza mais nos meses de verão, com o
regresso dos emigrantes. E quem esteja a aproveitar a ideia do turismo na saúde para produzir mais com os imigrantes, nomeadamente os ingleses e americanos, que podem vir a encontrar em Portugal uma boa opção para tratar da sua saúde oral.

No entanto, ficamos sempre apreensivos quando percebemos que mais um conhecido de um paciente nosso foi colocar dentes à Turquia.

Sobretudo porque antecipamos um problema a agigantar-se quando esses implantes começarem a dar problemas e o médico turco já não estiver ao serviço, ou o bilhete de avião estiver muito caro.

Onde fica depois a responsabilidade de quem, em Portugal, nada teve a ver com a colocação, mas cuja ética profissional dificulta o ter de dizer nãos consecutivos a quem precisa de ajuda? E quantos mais pacientes tivermos que conhecem amigos que foram alvo do “turkishteeth”, mais vamos ter de lidar com esta questão no futuro. Ou talvez não.

Pode ser que os futuros robots humanoides dotados de Inteligência Artificial (IA) possam diagnosticar e tratar estes casos que ficam em território de ninguém. Afinal, não serão eles mais capazes tecnicamente sem estarem sujeitos ao crivo da responsabilidade moral? Mas temo que, nesses anos futuros, a responsabilidade moral andará de mão dada com o compromis- so político e ambos valerão pouco, para não dizer nada.

A Anthropic já entendeu isso e está a desacelerar o desenvolvimento da IA. Creio que já vai tarde. Receio que é já inevitável que nos tornemos radicalmente inferiores à máquina naquilo que sempre foi distintivamente humano: a inteligência. E quando assim for, a medicina dentária deixará de ser medicina.

 

 

 

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia
pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela
Universidade Santiago de Compostela

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OJD 140 JUNHO 2026

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