O JornalDentistry em 2018-6-29

EVENTOS

“O Profissionalismo em Portugal é do mais correto que eu alguma vez vi”

Entre a importância da promoção de cursos com recurso a prática em cadáver, os seus contornos legais e as técnicas desenvolvidas in loco, O JornalDentistry conversou com o Prof. Doutor Howard Gluckman para conhecer a perspetiva de um dos maiores especialistas mundiais nas áreas da periodontologia e implantologia

Prof. Doutor Howard Gluckman

O JornalDentistry – Quais são as principais vantagens da prática em cadáveres neste tipo de laboratórios? E porque é que esta prática é tão importante? 

Prof. Doutor Howard Gluckman – Em primeiro lugar, na maior parte dos casos é muito difícil conseguirmos praticar em cadáveres, porque o acesso a eles é complicado. Portanto, o que costumamos fazer é usar cabeças de porco para trabalhar. Obviamente que uma cabeça de porco não pode ser comparada com uma de ser humano. A anatomia é diferente, os tecidos também e como geral- mente trabalhamos em animais velhos, os tecidos são muito duros. Perante isto, a ideia com que ficamos nunca é a mais correta ou a mais próxima da realidade. Já um cadáver dá-nos a exata perspetiva que depois vamos encontrar ao tratar um paciente. É incomparavelmente muito mais real – mais real que isto só mesmo num paciente. Mas evidentemente que não é justo para um paciente entrar num consultório pela primeira vez e ser tratado com uma técnica específica sem que o médico dentista tenha qualquer experiência nesse mesmo tratamento. Como tal, a prática em cadáveres dá-nos um know-how preciso de como abordar um tecido duro, um tecido mole, como lidar com o osso, para além de ter uma anatomia igual à do paciente: temos os maxilares, a língua, todos os obstáculos e problemas que vamos encontrar num caso clínico. A única diferença é que um cadáver não sangra – e obviamente que isso tira muito do stress envolvido numa operação. Em tudo o resto, é o mais parecido com qualquer situação real. 

O JornalDentistry – Legalmente, este tipo de prática é diferente de país para país. Foi mais difícil conseguir a autorização em Portugal do que noutros países para levar a cabo este curso? 

Prof. Doutor Howard Gluckman – Em determinados países não é de todo possível levar a cabo um curso destes. Fi-lo em alguns lugares e posso dizer que o profissionalismo em Portugal é do mais correto que eu alguma vez vi. O que me impressionou mais foi a maneira como aqui tratam os corpos – e esse é um detalhe que valorizo muito. Noutros lugares o que nos é apresentado é o corpo inteiro, os estudantes circulam em redor dos corpos, muitas vezes deitados sem grande cuidado. Aqui existe um enorme respeito pelos cadáveres. As caras estão cobertas e apenas destapadas na zona circundante da cavidade oral, há formulários que têm de ser assinados para garantir que não são tiradas fotos e que cada corpo é acompanhado por duas pessoas do laboratório de anatomia, que estão constantemente a vigiar os trabalhos. O corpo é respeitado acima de qualquer procedimento. Mas, como disse, o estudo em cadáveres não é permitido em qualquer país. Por isso, quando se consegue ter acesso a estas condições, é incrível. 

O JornalDentistry – Como se processa, por exemplo, na África do Sul? 

Prof. Doutor Howard Gluckman – É possível, temos alguns laboratórios muito bons e é uma prática que desenvolvemos num contexto educacional. 

O JornalDentistry – Sobre a componente técnica, que tipo de intervenções cirúrgicas estão a ser exploradas neste curso? 

Prof. Doutor Howard Gluckman –Essencialmente estamos a trabalhar em implantologia, na substituição dos dentes em falta e em todas as técnicas à volta desta circunstância. Estamos a trabalhar em procedimentos avançados de enxerto ósseo, técnicas avançadas de tecidos moles, tudo metodologias que ajudarão estes estudantes a atingirem um nível de excelência na prática de implantologia. Estamos a passar de um nível básico e intermédio para um nível avançado e altamente especializado para que os pacientes possam chegar às clínicas e ter à sua disposição os melhores tratamentos desta área. 

O JornalDentistry – O estudo da anatomia in loco que este curso permite é, por si só, uma vantagem. Comparando com outros labo- ratórios mais teóricos, esta é uma oportunidade única para exemplificar como podem ser evitados alguns erros clínicos? 

Prof. Doutor Howard Gluckman – Os erros são inevitáveis e qualquer profissional que pense que não os comete está a mentir a si próprio e aos outros. Todos cometemos erros, somos humanos. Parte deste curso e da prática que estamos aqui a desenvolver está especificamente desenhada para nos guiar minuciosa- mente e passo a passo pelos procedimentos técnicos para que, numa situação real, se possam evitar alguns problemas. Os problemas serão analisados tais quais eles são, ou seja, vou trazer para aqui alguns erros que fiz no passado para mostrar o que aprendi e como os contornei. Para mim esse é o propósito deste curso, enquanto professor. A parte boa deste tipo de laboratórios é que os pequenos erros começam a ser feitos em cadáveres. Existem pequeninas nuances e detalhes do processo cirúrgico que podem fazer uma diferença enorme no resultado final. Portanto, se os erros forem feitos aqui, eu posso ajudar os participantes a não os repetirem mais tarde. 

O JornalDentistry – Qualquer profissional desta área, independentemente do seu nível de experiência, pode beneficiar com um curso destes? Ou este laboratório está mais direcionado para médicos dentistas com um grau de experiência mais consolidado? 

Prof. Doutor Howard Gluckman – Creio que, de certo modo, qualquer profissional pode fazer um curso com prática em cadáver desde um nível básico até um mais avançado. E falo também dos estudan- tes que ainda estão a frequentar as suas licenciaturas. Existem determinados procedimentos cirúrgicos que qualquer estudante está apto a realizar. Nas próprias faculdades já existe, em muitos casos, o ensino com recurso a cadáveres. A questão prende-se mais com o custo deste tipo de laboratórios, porque são muito caros. Não é fácil – nem barato – ter acesso às cabeças de cadáver para que um grupo específico de profissionais possa participar num curso deste tipo. Desse ponto de vista, é preciso fazer um balanço entre a relação custo/benefício. Posso ensinar os procedimentos básicos aos estudantes apenas recorrendo a uma cabeça de porco ou a um crânio seco? Provavelmente sim. Será que precisam de ter acesso a um cadáver só para aprende- rem a perfurar um osso? Diria que não. Na minha opinião, indicaria este tipo de laboratórios para profissionais mais avançados. 

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