JornalDentistry em 2023-8-02

CRÓNICAS

Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha

Conta-se que os árabes pediram ao profeta Maomé uma prova de fé, um milagre. Maomé, para demonstrar os poderes divinos, decidiu pedir que o monte Safa viesse até si.
 A montanha não se deslocou e o profeta decidiu, ele próprio, deslocar-se até à montanha.


Mónica Pereira Lourenço e Cristina Spinache.

De seguida, elogiou a misericórdia do Senhor, pois a montanha poderia ter esmagado toda a população no caso de se ter deslocado. 

Numa altura de férias para alguns e de início de carrerra para outros, decidi trazer-vos a história da Cristina, uma jovem médica dentista que, tal “Maoméia”, não ficou à espera de ninguém para cumprir o seu destino. Ambicionando trabalhar nos serviços públicos, simplesmente teve iniciativa de perguntar a várias entidades se precisariam dela. 

Tanto perguntou que ouviu um sim. 

Muitas vezes fala-se da dita “cunha”, tão tradicionalmente portuguesa quanto a bola de berlim na praia ou o pastel de nata. Estar presente, questionar, ter curiosidade, mostrar soluções para problemas existentes, pode ser uma forma tão ou mais poderosa do que ter uma “cunha”. 

Lembras-te daquela miúda que (...) ? 

Pois bem, fiquem com o testemunho inspirador da Cristina Spinache, que conheci aleatoriamente durante um almoço na última Reunião dos Serviços Públicos (mais sobre esta reunião edição anterior d’O JornalDentistry). 

Tudo começou com um “olá” e um “então, como chegaste tu a esta montanha?”. 

PS.: Apesar desta vontade de ajudar, até as Cristinas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) apontam como maior desafio as condições contratuais. A carreira que não se despache não! Fica a nota incisiva. 

Cristina Spinache 

Como chegaste ao SNS? 

Eu desconhecia a existência da oportunidade de trabalho nos Centros de Saúde (CS) como médica dentista, porém foi muito interessante a maneira como fui lá parar. 

Após ter terminado o mestrado na Faculdade de Coimbra estava bem ciente de que não iria percorrer o mesmo caminho que a maior parte dos médicos dentistas percorre, mas sim, ter uma participação mais comunitária, intervir na prevenção e contribuir de forma significativa na mudança da saúde oral em Portugal. 

Durante alguns meses, com grande vontade e entusiasmo, estive focada na pesquisa de forma a saber mais sobre o estado de saúde oral em Portugal e fiquei intrigada por não existirem (ou existirem em número muito reduzido) práticas de prevenção. Por um lado, não temos a medicina dentária totalmente integrada no sistema geral da saúde, por outro lado temos um grande número de pessoas que não  tem possibilidade económica para realizar os tratamentos e que continua com dor e com patologias orais, o que leva consequentemente à instabilidade e desigualdade social contribuindo para a exclusão social. 

Para além da pesquisa, também entrei em contacto com marcas de pastas dentífricas e com entidades e expus o meu interesse em colaborar em projetos que atuassem na prevenção, diagnóstico e tratamento relacionado com saúde oral pública. Uma das entidades que eu contactei, sem conhecer verdadeiramente a instituição, foi a ARS Alentejo Central. Foi a partir daí que se iniciou o meu percurso nos Centros de Saúde do Alentejo. 

Antes de ser contactada pela ARS Alentejo Central, também passei pela experiência de trabalhar como Assistente Dentária numa clínica com várias especialidades em Lisboa e também como médica dentista numa clínica privada em Évora. Embora tenha tido uma boa experiência, acabei por não continuar em clínicas privadas porque não me entusiasma verdadeiramente. 

Qual a zona em que trabalhas? 

Iniciei este percurso no CS de Reguengos de Monsaraz e neste momento estou no CS de Estremoz. 

Maiores desafios até agora no SNS 

Os maiores desafios que tenho sentido são as condições dos contratos de trabalho (baixa atratividade monetária, carga horária) que acabam por prejudicar os profissionais que querem realizar tratamentos de qualidade e que querem intervir na prevenção e melhorar a saúde oral da população. 

Gosto muito do trabalho que pode ser feito com outros profissionais que trabalham no CS (psicólogos, nutricionistas, médicos de família, auxiliares de saúde...), gosto da relação que se cria com os doentes, pois como não há custos para a pessoa, um doente que está a ser tratado no CS mais facilmente frequenta as consultas durante um longo período de tempo, o que nos permite sensibilizar, alterar hábitos negativos e ajudar a iniciar outros hábitos benéficos para a saúde oral. Para além disso, fico feliz por obser- var que vários pacientes iniciam tratamentos em clínicas privadas após as nossas consultas. Possivelmente, se não fossem tratados e sensibilizados no CS, não iriam investir em tratamentos dispendiosos mas importantíssimos para uma boa saúde oral. 

Acredito que o médico dentista nos CS pode contribuir de forma significativa para a prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, o que acredito que contribui para um aumento da literacia e, consequentemente, um maior investimento na melhoria da sua saúde oral, o que, no meu ponto de vista, pode contribuir para a diminuição das patologias orais, aumento da autoestima, diminuição das desigualdades sociais e uma maior qualidade de vida. 

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