JornalDentistry em 2026-5-27
A saúde oral continua a representar um problema relevante entre a população prisional em Portugal, com impacto não apenas clínico, mas também na qualidade de vida e no bem-estar psicológico e social dos reclusos.
A conclusão resulta de um estudo desenvolvido por investigadores do Instituto Universitário de Ciências da Saúde da CESPU, publicado no European Journal of Dentistry, que analisou 103 pessoas detidas no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira.
Os dados apontam para uma prevalência expressiva de problemas de saúde oral. De acordo com a investigação, 68% dos reclusos avaliados apresentavam cáries e 24,3% relataram dor física associada à sua condição oral. O estudo identificou ainda umamédia de cerca de 13 dentes perdidos por pessoa, um valor que corresponde a aproximadamente metade da dentição adulta.
Para os autores, estes indicadores reforçam a necessidade de integrar a saúde oral nas respostas de saúde dirigidas à população prisional. A elevada perda dentária, em particular, é apresentada como um sinal da “importância de integrar a saúde oral nas
políticas de saúde em meio prisional”, defendem os investigadores.
A investigação sublinha que os reclusos constituem uma população com maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de problemas de saúde oral. Além de fatores individuais, esta realidade pode estar associada a dificuldades de acesso a cuidados
preventivos e continuados, bem como a contextos sociais e de saúde acumulados antes e durante o período de reclusão.
Nesse sentido, os autores defendem a implementação de programas estruturados de promoção da saúde oral em meio prisional. Estas respostas deverão incluir medidas preventivas ajustadas às características desta população, com o objetivo de reduzir
complicações futuras e melhorar o acompanhamento dos reclusos.
O estudo não se limita, porém, à dimensão clínica. Os resultados mostram também que a condição oral tem reflexos no bem-estar psicológico e social dos participantes, com idades entre os 18 e os 70 anos. Quase um terço dos reclusos avaliados, 29,6%,
referiu desconforto psicológico associado ao estado da sua saúde oral.
A relação entre saúde oral e qualidade de vida surge, assim, como uma das principais mensagens da investigação. Problemas como cáries, dor, perda dentária ou dificuldades funcionais podem interferir com a alimentação, a comunicação, a autoestima e a
interação social, fatores especialmente relevantes num contexto de maior vulnerabilidade, como o meio prisional.
O trabalho de campo decorreu entre outubro de 2023 e junho de 2024 e envolveu investigadores das unidades UNIPRO, UCIBIO-1H-TOXRUN e i4HB. A CESPU destaca que esta investigação contribui para aprofundar o conhecimento sobre determinantes de
saúde em populações vulneráveis e para apoiar o desenho de respostas mais adequadas às suas necessidades.
Publicado no European Journal of Dentistry, o estudo chama a atenção para uma área frequentemente menos visível nas políticas de saúde em contexto prisional. Para os investigadores, os resultados evidenciam que a saúde oral deve ser considerada uma
componente essencial da saúde global dos reclusos e integrada em estratégias de prevenção, acompanhamento e promoção da qualidade de vida.