O JornalDentistry em 2022-5-07

NOTÍCIAS

Os primeiros passos de uma nova forma de supervisão cirúrgica à distância

Pela primeira vez, graças à realidade aumentada e à 5G, teve lugar, entre a Fundação Champalimaud, em Lisboa, e a Universidade de Zaragoza, em Espanha, uma experiência inédita em cirurgia do cancro da mama.

A intervenção foi supervisionada remotamente por um segundo cirurgião, mas tudo se passou como se este estivesse mesmo na sala, a olhar por cima do ombro do cirurgião que realizou a operação. 

No dia 5 de Maio, pelas 15h (hora de Lisboa), o cirurgião Pedro Gouveia esteve no seu bloco operatório da Unidade da Mama da Fundação Champalimaud, em Lisboa, e iniciou, como tantas outras vezes, uma cirurgia de cancro da mama. Um outro cirurgião da mesma unidade, o jovem espanhol Rogelio Andrés-Luna, esteve entretanto a assistir à operação, intervindo, quando necessário, para fornecer a Pedro Gouveia informação complementar e ajudar a até orientar os gestos do cirurgião. Parecia ser uma ocasião como tantas outras, mas não foi. 

Antes de mais, Pedro Gouveia estava equipado com óculos de realidade mista (Hololens 2, desenvolvidos pela Microsoft). Os óculos permitem que veja à transparência o mundo real à sua volta – nomeadamente a sua doente, deitada na maca – e, ao mesmo tempo, ter acesso a informações projectadas sobre as lentes especiais, tal e qual a viseira do capacete de um piloto militar. 

Diga-se já agora que Pedro Gouveia é pioneiro na utilização das Hololens para realizar cirurgias de cancro da mama guiadas por modelos digitais e personalizados do tumor e do corpo das doentes. Desenvolveu, também na Fundação Champalimaud, uma metodologia digital não invasiva que permite localizar com grande precisão o tumor a extrair durante a cirurgia, quase como se a mama à sua volta se tivesse tornado transparente. (https://fchampalimaud.org/pt-pt/news/tecnologia-de-realidade-aumentada-e-modelos-3d- personalizados-da-mama-utilizados-pela-primeira) 

Voltando à experiência que foi realizada ontem, é de salientar que Rogelio Andrés-Luna não estava fisicamente no bloco operatório durante a cirurgia – nem em Lisboa, nem mesmo, aliás, em Portugal. Encontrava-se a mais de 900 km de lá, no palco do Congresso da Associação Espanhola de Cirurgiões da Mama (AECIMA), que decorre de 5 a 7 de Maio na Faculdade de Medicina da Faculdade de Zaragoza, a demonstrar, juntamente com Pedro Gouveia, uma inédita forma de supervisão cirúrgica remota. 

Rogelio Andrés-Luna teve, como único instrumento de trabalho, um laptop ligado às Hololens de Pedro Gouveia, via rede privada 5G da Altice Portugal, associada à Movistar em Espanha, através de um dos habituais browsers da Web, por um software dedicado, desenvolvido pela empresa remAID (sediada na Alemanha). E, apesar da distância física considerável entre os dois médicos, tudo se passou como se o “cirurgião-supervisor” estivesse mesmo ao pé do “cirurgião-executante”, a olhar por cima do seu ombro e a assisti-lo na sua delicada tarefa. 

Mas como é que isso foi possível, visto o desfasamento temporal nas imagens introduzido pela transmissão de dados, e sobretudo de vídeos, pela internet/wifi – a mais potente tecnologia de banda larga hoje geralmente disponível para a transmissão de dados nas redes de telecomunicações? Como é que os dois cirurgiões conseguiram sincronizar as suas delicadas acções, sem que existisse um desfasamento temporal (“latência” é o termo técnico) de vários segundos entre o que um estava a fazer e o que o outro estava a ver? A resposta é que a experiência que teve lugar na quinta-feira não recorreu à 4G nem ao Wifi, mas sim à forma mais recente e poderosa de transmissão de dados digitais: a 5G. “A 5G pulveriza a latência”, reduzindo-a a poucos milissegundos, diz Pedro Gouveia. “É por isso que é tão importante no contexto da nossa experiência”, acrescenta. 

Ao longo da intervenção, não só Rogelio Andrés-Luna pôde ver (quase) exactamente o que Pedro Gouveia estava a fazer num preciso instante, mas Pedro Gouveia, pelo seu lado, pôde receber, quase instantaneamente através das Hololens, informações úteis e oportunas naquele instante, em particular pequenos vídeos de cirurgias semelhantes, já realizadas. E até conseguiu visualizar oportunamente, à frente dos seus olhos, sobreposto ao corpo da doente e desenhado em tempo real por Rogelio Andrés-Luna no seu laptop, um traço azul que lhe indicou o local escolhido para fazer a incisão inicial. 

“Realizamos a primeira experiência no mundo de utilização, ao vivo e em directo, daquilo a que se dá o nome de ‘remote proctoring’, durante uma cirurgia de cancro da mama”, explica entusiasmado Pedro Gouveia. 

O remote proctoring (em português algo como “supervisão remota"), já está a ser utilizado para monitorizar provas escritas à distância. O software, neste caso, permite supervisionar os estudantes por vídeo enquanto fazem o exame – e também detectar eventuais comportamentos suspeitos (como a utilização de telemóveis). Aqui, a latência das imagens transmitidas por 4G/Wifi não é crucial, porque as imagens dos alunos são gravadas durante a prova, podendo ser consultadas mais tarde. 

Se Pedro Gouveia acredita que esta metodologia de supervisão à distância tem o potencial de se tornar uma das características-chave do bloco operatório do futuro que ele vislumbra, é precisamente porque a 5G leva o remote proctoring para um novo patamar em termos de simultaneidade. 

No seu papel de tutor, diz Rogelio Andrés-Luna pelo seu lado, “dei indicações ao meu ‘aprendiz’”. “Assinalei (com o meu ‘lápis’ azul) os locais onde era preciso ter mais cuidado, mostrei imagens e vídeos. Estivemos em contacto audiovisual permanente.” 

Para realizar este feito, os dois médicos contaram com a colaboração, como era de esperar, de operadoras de telecomunicações de ambos os lados da fronteira. Tratou-se da Altice Portugal em Portugal, que ficou encarregue de que tudo funcionasse bem do lado da Fundação Champalimaud (instituição que foi equipada com uma rede privada 5G Altice); e a Movistar espanhola, que assegurou, graças a um equipamento móvel colocado nas imediações da Universidade de Zaragoza, a cobertura 5G daquele local. 

O sucesso desta experiência, que constituiu um primeiro passo – uma “prova de conceito”, considera Pedro Gouveia – poderá mudar a forma como se realizam as cirurgias no futuro, e em particular permitir não só um treino mais realista dos estudantes, mas também um maior apoio aos cirurgiões que estão em início de carreira e realizam as suas primeiras cirurgias. Estes poderão assim ter a ajuda/supervisão de cirurgiões mais experientes e sentir-se muito mais seguros. 

Actualmente, uma vez acabada a sua formação, os jovens cirurgiões estreiam-se geralmente sem acompanhamento - sobretudo quando trabalham em locais ou países remotos onde são a única pessoa qualificada para realizar uma determinada cirurgia. As operações que realizam podem ser gravadas e avaliadas a posteriori, mas durante o acto cirúrgico, “eles estão sozinhos, a precisar de ajuda”, diz Pedro Gouveia. A nova abordagem que foi agora testada, poderá minimizar esse problema, fornecendo aos cirurgiões principiantes a tão necessária supervisão em tempo real, nomeadamente por parte dos seus professores e mentores. 

Mais geralmente, Pedro Gouveia quer também utilizar a sua nova abordagem para permitir que os estudantes de cirurgia, quando não é possível deslocarem-se ao local onde decorre a operação, assistam remotamente a intervenções cirúrgicas, como parte da sua aprendizagem, como se lá estivessem. 

E vai mais longe: “os avanços que as tecnologias imersivas irão trazer, através de mentorização/proctoring à distância, abrem uma nova era: a da utilização do chamado ‘metaverso’ na educação médica pós-graduada”, salienta. “O metaverso, ou seja o acesso à internet via realidade aumentada, virtual, mista e/ou estendida, através de um dispositivo imersivo colocado na cabeça, já é considerado como sendo a plataforma de próxima geração da computação móvel!”, exclama. 

Pedro Gouveia admite, todavia, estarem apenas no início da sua visão do bloco operatório do futuro – que será, segundo ele, “uma sala multimédia”. “Ainda temos de validar metodologias, fazer mais cirurgias, identificar obstáculos, optimizar os óculos de realidade aumentada ...”, conclui. 

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