JornalDentistry em 2022-12-20

CRÓNICAS

Crónica Pimenta na língua

“É fácil ganhar muito dinheiro empouco tempo; o díficil é ganhar dinheiro durante muito tempo” - Professor Neca

Dr. João Pimenta, Académico Honorário da Academia Brasileira de Odontologia.

Quando ouço falar em assuntos como a publicidade, o marketing digital, influenciadores e outros assuntos, tão em voga numa sociedade cada vez mais sem valores e ética, e tendo um filho que segue a minha carreira, com 40 anos de idade, perguntei-lhe o que achava do tema. 

Disse-me com bastante clareza que há “nichos” e que esse caminho é como uma autoestrada...anda-se depressa e pode chegar-se bem mais rápido ao destino; só que neste momento há um problema grave que é um entupimento no trânsito, pelo que é bem melhor andarmos em estradas nacionais, e com a vantagem de não pagarmos portagens. 

E mais me disse que as modas dos alinhadores, harmonização facial e outros procedimentos “fashion” estão saturadas, por profissionais maioritariamente com uma péssima preparação. 

Há “dentistas tik-tok” que pensam que o sucesso é medido pelo número de likes e de visualizações dos seus “maravilhosos casos”, e que chamam de mentes quadradas a quem não segue o caminho do marketing...eu desejo a todos a maior sorte do mundo, mas posso lamentar quem não saiba o que é a saúde, o respeito pelos pacientes, não os expondo com as suas desgraças, a troco de tratamentos gratuitos, muitas vezes nos media. 

Foi também por causa do marketing e da publicidade que fomos perdendo credibilidade perante a população, que nos vê genericamente como uma “quadrilha de ladrões”. Muitos fizeram tudo para que isso acontecesse. 

Eu sou dos que pensam que devia ser proibida a publicidade em saúde; ponto final. 

Mas está regulamentada, dirão alguns...regulamentada e constantemente atropelada, descarada e impunemente. 

É na área da cosmética médica e dentária que vemos o maior número de casos desse marketing; também alguns hospitais ditos privados (chamar-lhe-ia antes convencionados) usam e abusam, recorrendo não raras vezes a “call-centers” com ofertas muitas vezes enganosas...é a lei do vale tudo... 

Até para mim e meus familiares ligam propondo consultas de avaliação gratuitas, com ortopantomografia incluída. E agora pergunto eu: será que o regime de proteção de dados não está a ser desrespeitado nessas ligações?...responda quem saiba... 

Não deixaria de ser engraçado saber como um proctologista faria o seu marketing...tem três hemorroidas?...pague uma e tiramos-lhe as três...”pró sistema hemorroidal sou o melhor em Portugal”... 

Ou um ORL...cornetos inflamados? Corto-os e ainda terá grátis uma cirurgia aos seios maxilares...não tem sinusite?...mas vai ter...é uma cirurgia preventiva...de bónus “afinamos” as cordas vocais... 

Um cirurgião torácico diria: uma dor no peito? Primeira con- sulta grátis e vou descobrir-lhe uma lesão numa válvula...uso as melhores válvulas mundiais...”sou doutor do coração e vou mudar a sua vida...ou não”. 

Evidentemente que ridicularizei o tema; não fosse ele também completamente ridículo... 

Agora a moda é também fazer dos médicos dentistas gestores “diplomados” com capacidade para fazerem tudo e mais alguma coisa, desde gestão de stocks até às técnicas mais elaboradas para deteção de pontos fracos e fortes da sua clínica. Gestão de “clientes” é agora também “o ponto” como dizem os nossos políticos. 

Inclusivamente há publicidade de casas comerciais que pro- põem esse tipo de cursos, fazendo crer aos incautos que dessa forma vão colocar mais implantes ou fazer mais tratamentos, já que terão os “skills” (olhem que o parolo de Barcelos sabe escre- ver ferramentas em inglês) que lhes conferirão essa enorme vantagem. Importante é a gestão...importante é venderem... se são “patas de urso”, ou não, que importa...Gerindo com algumas fórmulas mágicas vão colocar milhares de implantes ou outros tratamentos, e por ano...”de certeza absoluta”...e as casas comerciais ajudarão...”compra-me 500 implantes e levo-te à televisão”...(rimou porque a maré está baixa!...). 

Este vosso amigo provinciano vê novelas na televisão. Quase todos vêm, mas convém nada dizer, para dar um ar intectualoide, urbano, “chic”. No “Sangue Oculto” da SIC dá-se a mostrar como é que o Hospital Luís de Camões (assim se chama a instituição de saúde) mudou desde que entrou um gestor que só vê o lucro, o dinheiro, proibindo inclusivamente médicos de salvar vidas só porque essas pessoas não têm pos- sibilidades financeiras. Acredito ser uma visão hiperbolizada, mas não deixa de ter alguma verdade. 

Há dias recebi um envelope que tinha escrito por fora “confidencial” propondo-me por 1,30 euros “por cabeça” trazerem para a clínica pacientes que já não vinham às consultas há muito tempo. Acho esta proposta absolutamente “fabulástica”, que nos dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo...”Ó que nós chega- mos” (este é o título de um artigo que escrevi há alguns anos). 

Perguntarão agora: mas a sua clínica é gerida de que forma? 

Em primeiro lugar, em segundo e em terceiro, e assim sucessivamente estão as pessoas: toda a equipe clínica, desde a senhora da limpeza ao diretor clínico, e também os nossos pacientes (praticamente todos têm o nosso contacto pessoal; se for necessário vamos ao consultório ao domingo ou de noite). 

Seguidamente só usamos produtos de altíssima qualidade, que testamos previamente. Olhem que nem sempre os mais caros são os melhores. Os stocks estão reduzidos ao mínimo, pois temos fornecedores eficientes e eles sabem que existe respeito e confiança mútuos. Não embarcamos em algumas promoções que são autênticos atentados aos pobres médicos dentistas, fazendo estes stocks estupidamente altos (e não cobram o armazenamento aos fornecedores). Fazemos regu- larmente consultas de preços ao mercado. 

Para tudo isto usamos folhas de papel, e lápis com “safa”... perceberam, né? (como diriam os meus amigos brasileiros). 

As nossas primeiras consultas são referenciadas por amigos ou familiares. Não temos pacientes que nos procuram por causa das redes sociais ou pela publicidade. Podem crer que quando chegam já nos conhecem bem...melhor do que pelo possível engano “das redes”. 

Temos uma excelente contabilista, organizada, eficiente, a quem pagamos bem, mas que não trabalha na clínica, e que de 6 em 6 meses nos dá uma visão de como vão as contas. 

Felizmente todos comungam da mesma filosofia dentro da clínica desde o “velhote” que sou eu, ao “jovem” meu filho André Pimenta que comigo trabalha, e todos os colaboradores médicos e não médicos. 

Somos simples, não ligamos “complicómetros” e sobrevivemos bem ao fim de mais de 41 anos. 

Sabemos que obrigatoriamente temos que ter projetos sociais de apoio aos mais desfavorecidos. Neste momento temos dois, um já com 12 anos. Fazemos disso publicidade?... não...somos solidários porque essa é também a nossa função como profissionais com formação médica... 

Acham que é preciso um curso ou um doutoramento para se fazer isto?... 

É preciso respeito pelas pessoas, pela sua saúde, pelo seu sofrimento. Respeito mútuo, que virá quando os pacientes vêm em nós um amigo de confiança. 

Nós somos respeitados no nosso meio, na nossa cidade, como cidadãos e como médicos dentistas. E tenho a certeza que assim continuaremos... 

Termino com uma frase do meu grande amigo e paciente Professor Neca: “É fácil ganhar muito dinheiro em pouco tempo; o difícil é ganhar dinheiro durante muito tempo”. 

Agora pensem... 


 

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