JornalDentistry em 2026-3-28

CONVIDADOS

De lisboa a Oslo, com o paciente no centro: o percurso e a investigação de Lucete Faerovig

Distinguida com o Dewel Award, a ortodontista portuguesa defende, em entrevista a O JornalDentistry, uma prática mais humana, participada e baseada em evidência científica.

Dra. Lucete Fernandes Faerovig

A carreira da Dra. Lucete Fernandes Faerovig fez-se entre Lisboa e Oslo, entre a prática clínica, o ensino universitário e a investigação. Esse percurso internacional, diz a
própria, moldou não só a profissional como também a forma como encara a ortodontia: menos centrada no “caso clínico” e mais focada na pessoa concreta que se senta na cadeira.
“A evolução em torno da medicina centrada no paciente traduz-se na passagem de uma ortodontia centrada no caso clínico para uma ortodontia centrada na pessoa”, afirma a investigadora.

"Cada caso clínico é um desafiohumano  antes de ser técnico e ocontacto com os                               pacientes exige uma abordagem delicada,  precisa e humana"

Na entrevista a O JornalDentistry, a especialista recorda que a mudança para a Noruega foi um dos momentos mais marcantes do seu trajeto. Mais do que uma alteração geográfica, representou “uma transformação profunda no modo de viver e de trabalhar”, num ambiente académico mais internacional, exigente e assente na autonomia e no rigor metodológico. Essa experiência, sublinha, ajudou-a a consolidar uma identidade profissional “curiosa, colaborativa, comprometida com a excelência e a ética, e orientada para o impacto real”.

"Uma comunicação eficaz, compartilha de decisões e consideração
das expectativas individuais dos pacientes assume um papel cada vez
mais central"

Essa visão ajuda a explicar a importância que dá hoje ao conceito de cuidado centrado no paciente. Num campo como a ortodontia, em que muitos tratamentos são eletivos, prolongados e exigem elevado grau de colaboração, a Dra. Lucete Faerovig considera insuficiente medir o sucesso apenas por critérios técnicos. Ao longo dos anos, tornou-se claro que “o sucesso terapêutico não se mede apenas por parâmetros objetivos profissionais, mas também pela perceção subjetiva de bem-estar e satisfação do próprio paciente”.
A ortodontista destaca, aliás, o peso que estes tratamentos têm na vida das famílias. Entre consultas de quatro em quatro ou de seis em seis semanas, faltas à escola ou ao
trabalho, custos financeiros e exigência no uso correto dos aparelhos, a experiência do doente ganhou um lugar central. Daí a valorização crescente de instrumentos como os Patient-Reported Outcome Measures (PROM), que permitem medir também os resultados considerados relevantes pelos próprios pacientes. “Uma comunicação eficaz, com partilha de decisões e consideração das expectativas individuais dos pacientes assume um papel cada vez mais central”, resume.
Foi também a partir da prática clínica que nasceu o interesse por uma das áreas mais exigentes da ortodontia, a exposição cirúrgica de caninos inclusos. “O interesse surgiu
da prática clínica, sem dúvida”, diz. Os caninos, lembra, têm enorme importância estética e funcional e, depois dos terceiros molares, estão entre os dentes que mais frequentemente ficam inclusos. Quando isso acontece, a situação pode originar sequelas graves, incluindo reabsorção das raízes dos dentes vizinhos.
A Dra. Lucete Faerovig descreve este como “um dos tratamentos mais desafiantes numa clínica ortodôntica”, por ser longo, dispendioso, mecanicamente exigente e, por vezes, imprevisível. Há uma primeira fase cirúrgica para expor o dente e uma segunda etapa ortodôntica para o alinhar na arcada. Tudo isto com impacto real no quotidiano dos doentes, sobretudo dos mais novos. “Cada caso clínico é um desafio humano antes de ser técnico”, afirma, defendendo uma abordagem “delicada, precisa e humana”.
Foi neste contexto que desenvolveu o ensaio clínico agora distinguido com o Dewel Award, centrado na comparação entre a técnica aberta e a técnica fechada na exposição de caninos inclusos superiores. A relevância do estudo, explica, resulta também da metodologia, já que se trata de um ensaio clínico randomizado, considerado o “padrão-ouro” da investigação clínica por minimizar vieses e produzir evidência particularmente fiável. Numa área em que persistia falta de consenso sobre dor, desconforto, duração do tratamento e complicações associadas a cada técnica, esse desenho metodológico ajudou a dar robustez e utilidade prática aos resultados.

"A evolução em torno da medicina centrada
no paciente traduz-se napassagem de uma ortodontia
centrada no caso clínico para uma ortodontia centrada na
pessoa"

Apesar da projeção internacional, a investigadora insiste em enquadrar o prémio num percurso coletivo. “Não o vejo tanto como um ponto de chegada, mas como um reconhecimento que não é apenas pessoal meu mas coletivo”, diz.
Para a Dra. Lucete Faerovig, a distinção vale sobretudo como prova de que a investigação pode ter impacto concreto no dia a dia dos pacientes, e como estímulo para continuar a trabalhar “com a mesma curiosidade, o mesmo rigor e a mesma alma portuguesa” que a têm guiado desde o início.

 

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OJD 140 JUNHO 2026

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