O JornalDentistry em 2021-6-17

EDITORIAL

“E assim vai a vida...Híbrida”

Numa altura em que 40% da população portuguesa já recebeu a primeira dose da vacina COVID-19 e que 22% já tem a vacinação completa (duas doses), o regime de vida parece passar do online ao híbrido.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia

 

 

Híbrido é aquele regime de transição, que não rompendo totalmente com o passado não implementa o definitivo modo do futuro. Assim como na tecnologia automóvel, o híbrido é aquele que percebendo que o futuro da mobilidade já não pode ser mais à custa do petróleo, também não é suficientemente capaz de se mover totalmente livre dele. Não vem para ficar. Vem de passagem. Já em janeiro deste ano, assisti a um espetáculo de magia do Luís de Matos, híbrido. Eu estava sentada em cadeiras alter- nadas no teatro, mas havia muitos mais sentados juntos em suas casas a assistir. Os truques eram interativos, também com os de casa. “Ora aqui está uma fórmula híbrida que funciona! Pelo menos transitoriamente” - pensei. 
Agora começo a ver operacionalizar muito mais este conceito. Congressos híbridos em que os primeiros, os mais interessados, os mais de perto, podem assistir presencialmente e os que estão mais longe fisicamente, ou impossibilitados de comparecer, podem inscrever-se online e assistir através do ecrã. Duas formas diferentes de estar “presentes”. Esta for- ma híbrida de estar, também pode ser extrapolada para as nossas outras movimentações, para além das que fazemos em automóveis híbridos, cada vez mais verdes. Verde será, também, o certificado verde que a par- tir no início do mês de julho, a comunidade europeia quer atribuir aos donos de vacinação completa. Com uma mobilidade híbrida, os cidadãos vacinados ou curados poderão passar férias livremente lá fora e os outros ficarão a assistir pelo www ou qualquer telejornal. Uma fase transitória de mobilidade que privilegia uns em detrimento de outros que não tive- ram, ainda, a mesma oportunidade na vacinação. Percebo, mas confesso que não considero a medida totalmente blindada. Precisava de saber em que menor percentagem efetivamente um vacinado positivo contagia um cidadão negativo, face a um não vacinado. 
Enquanto isso confunde-se vacinado com ausente de risco de contágio, ou mesmo com risco de contrair a doença que obrigue a hospitalização. No mês passado as Seychelles, com a sua população (menos de 100.000 habitantes) praticamente vacinada, registou um aumento para mais do triplo dos seus casos de COVID-19 positivos, 37% dos quais em pessoas totalmente vacinadas com as duas doses. E 20% dos novos registos de internamento foram de pacientes totalmente imunizados com duas doses da vacina... 
O regime híbrido de transição permite, assim, manter as regras de afastamento físico, de diminuição do aglomerado de pessoas sobretudo num contexto de almoços ou coffee breaks que obrigue à retirada da máscara. Permite chegar a todos, ou chegar a outros, ou chegar a mais através do link de acesso. Mas permite a alguns o vislumbre da liberdade presencial, do calor do contacto, que ansiamos de volta, num futuro breve. Permite testar, outra vez no terreno, a organização de massas, com medidas mais eficazes de acessibilidade, prevenção de acidentes e rentabilidade económica. Mas depois confunde-se tudo e as medidas não se ajustam à realidade dos dias. 
E até quando? Até quando vamos manter isolamentos profiláticos de trabalhadores totalmente vacinados sem indicar testagem regular? Até quando vamos reter 14 dias em casa um pai/mãe vacinado cujo filho contactou na escola com um professor positivo vacinado? O filho pode viajar com o pai/mãe vacinados, entrar num avião, almoçar em restaurantes do outro lado do mundo, frequentar piscinas de hotel, etc... sem nenhum controlo sobre os seus contactos, nem sobre a positividade dos mesmos. Mas não pode ir à escola. Não testa, os pais não testam. Ficam todos em casa, à espera que passe, o tempo, a vida e a lógica. E se tudo isto é uma novidade e, por isso, com muita folga para o erro, a falta de lógica já começa a ser assustadora de mais. Será que com 70% da população vacinada e risco de contágio francamente diminuído trataremos desta doença como mais uma endémica e normalizamos os contactos? É assim a vida. E assim vai a vida...híbrida. 

 

 

Editorial publicado na edição de junho de 2021 do "O JornalDentistry" edição impressa e digital interativa

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