O JornalDentistry em 2020-5-28

EDITORIAL

“Retomaremos fortes, pela saúde oral dos portugueses”

O mês de maio é o mês da retoma, do desconfinamento. A definição real de desconfinamento lançada por CláudioSunkel, diretor do I3s é a seguinte:

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia, diretora do “O Jornal Dentistry”

 “Devemos manter as populações de risco mais protegidas e em segurança, permitindo que aquelas faixas etárias que, à partida, terão capacidade para lidar melhor com a infeção venham a ser infetadas gradualmente sem que se atinja um pico”. Até aí tudo bem, creio que já fomos percebendo que não há outra forma de fazer as coisas. Mas a forma de fazer as coisas mudou.

Continuamos no túnel. E estaremos. Não há uma luz ao fundo do túnel. Ainda.                 E quando sairmos do outro lado, lá não estará muito do igual que esperamos encontrar.

Não há “quando isto acabar, quando voltamos ao normal, quando regressamos ao de antes”. Enquanto buscarmos o fim sem percebermos que isto é o princípio duma mudança que não tem fim, não entendemos nada do que se está a passar.

O que se está a passar veio para ficar, não para acabar, terminar, chegar ao fim. Cabe-nos a nós perceber e adaptarmo-nos.

Os que melhor se adaptarem resistirão, por agora. No futuro, não sei. Pelo menos, até ao tratamento ou uma vacina eficaz não adiantará levantar o estado de emergência enganando-nos a nós próprios, com o raciocínio humano de que controlamos tudo e voltaremos à rotina de antes...

No 1º de maio a DGS e a OMD chegaram a “acordo” quanto ao levantamento da suspensão da atividade de medicina dentária.

As normas a implementar, essas, ou terão sido tratadas durante o período de inatividade, antecipando o reinício ou, caso contrário, os médicos dentistas sentirão a pressão de abrir as portas à queima roupa.

A agravar tudo isto, o governo três ou quatro dias depois lança o lema: ”Ou retomas agora ou daqui a oito dias”. Para as empresas em lay-off ao abrigo do despacho governamental de suspensão de atividade (como acredito que sejam muitas das clínicas de medicina dentária), esta é uma obrigação para poder continuar a beneficiar desse lay-off.

A força da economia não é para os fracos do sistema. O SNS é fraco. É bom, mas é fraco. E fracos são os médicos dentistas que não fazendo parte do SNS público, são o SNS privado que assegura a saúde oral em Portugal!

 Por isso tudo lhes é exigido: que parem, que se aguentem com 0€  porque sócios gerentes com trabalhadores a cargo, que retomem à queima roupa. A bem ou a mal em oito dias. E que não chorem. Que façam o seu trabalho, à sua custa, como sempre, só que com muito mais custos e muito menos tempo de cadeira.

Abram sem cobrar epis, com planos de contingência para não cruzar equipas, tempo de consulta invariavelmente aumentado.

Organização hospitalar, protocolos hospitalares, gastos hospitalares.

Para a população que nos acode já somos muitos. Mas para a força de nos fazermos ouvir, somos poucos. E até ver, fomos fracos. E dos fracos não reza a história. Retomaremos fortes, pela saúde oral dos Portugueses, já pela economia Portuguesa faremos pouco, somos fracos. Afinal, o que fez ela por nós?

O sentimento com que escrevo este editorial de maio é um misto entre tristeza e fé. Tristeza pelo desamparo que senti, como médica dentista, por parte duma DGS à toa e de comunicação erradamente séria e grave, e duma OMD que foi de arrasto, sem se afirmar, sem dignificar a nossa representação, com uma distância gigante na comunicação com os seus sócios.

Culminou com um manifesto erro de comunicação e desrespeito pela classe que representa aquando da forma comunicou o levantamento da suspensão da atividade em direto pela comunicação social.

Em direto, esteve na sic, na rtp, no porto canal... em direto nunca esteve com os seus sócios. Informou sempre do pedestal e tardiamente.

Mas também escrevo com fé, ou não fosse este o mês de Maria. Fé com o significado de acreditar. Acreditar que, mesmo com uma DGS à toa e uma OMD à deriva com a corrente, os médicos dentistas navegarão à vista durante algum tempo até encontrar novamente um porto seguro, uma rocha. E na profissão como na vida, ou és rocha ou vais com a maré…

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