O jornalDentistry em 2018-5-23

ENTREVISTA

“As grandes mudanças passarão pela digitalização do diagnóstico, planeamento e execução”

Em 1998, o Dr. Paulo Maló tratava pela primeira vez um paciente com a técnica All-On-4®, fazendo história na medicina dentária nacional e internacional.

Duas décadas depois, procurámos saber como avalia a evolução da técnica All-on-4® e como equaciona os próximos 20 anos da implantologia 

 

 — O JornalDentistry - Como avalia a evolução da medicina dentária nos últimos 20 anos?

 — Dr. Paulo Maló - Muito mudou nestes 20 anos, não só em termos de materiais e instrumentos disponíveis como em novos equipamentos, que vieram facilitar diagnóstico e tratamentos.Por outro lado, também aumentou o nosso grau de exigência e o dos nossos doentes. Este processo fez com que evoluíssemos de uma clínica dentária com pouco mais de 500 metros quadrados para 82 clínicas em 20 países e perto de dois mil colaboradores.

Servimos pacientes com todo o tipo de origens e culturas, mantendo sempre um elevado grau de exigência e rigor. Hoje em dia, a oferta de serviços de medicina dentária é também muito maior, incentivando-nos a manter os padrões de inovação e de qualidade que sempre diferenciaram a Malo Clinic e alavancaram o nosso crescimento, que começou numa vertente “word of mouth”. Nos últimos anos, as redes sociais têm vindo a assumir um papel cada vez mais importante na vida das pessoas. Estes novos canais de comunicação têm-nos permitido chegar mais longe e com maior celeridade.

O JornalDentistry - No passado, consultava-se o médico dentista quando havia dor e para extração de peças dentárias. E, mesmo mais tarde, as soluções de reabilitação oral precisavam de soluções como elevação do seio maxilar e enxertos, por exemplo. Como é que a técnica All-On-4® veio mudar o paradigma da medicina dentária, em Portugal e no mundo?

 — Dr. Paulo Maló - Em primeiro lugar, e embora os implantes tenham perto de 50 anos de história, a sua utilização rotineira em medicina dentária é muito mais recente. Assim, há 20 anos, ainda eram uma novidade, desconhecida e assustadora para a maioria dos doentes portugueses e mesmo para alguns médicos dentistas.

No entanto, as elevadas taxas de sucesso, as inúmeras vantagens comparativamente às alternativas de reabilitação fixa, bem como a relativa facilidade e rapidez de utilização, tornaram a técnica num elemento comum no dia-a-dia de uma clínica de vanguarda.

Mesmo assim, situações complexas de elevada falta de osso apresentavam-se ainda, nessa altura, como desafiantes e unicamente possíveis de reabilitar quando recorrendo a enxerto ósseo. Tratavam-se de procedimentos complexos e de elevada morbilidade para o paciente.

Foi, portanto, com muito entusiasmo que desenvolvemos a técnica de All-On-4®, que permitia a reabilitação fixa de desdentados totais num só dia. Contudo, e como acontece frequentemente com tudo o que é “novidade”, a aceitação por parte da comunidade científica não foi imediata. Só mais tarde, já suportada pelos ótimos resultados clínicos alcançados, passou  a ser entendida e aplicada, ensinada nas universidades, e hoje é encarada como uma das maiores invenções na área da implantologia, a nível mundial. É interessante constatar que algo com esta importância científica nasceu em Portugal, na Malo Clinic.

O JornalDentistry - Em 20 anos, a técnica evoluiu e, por certo, foi sofrendo algumas modificações. Quais as principais diferenças que assinala desde então?

 — Dr. Paulo Maló - Relativamente ao All-On-4®, a nossa equipa procurou sistematicamente dar resposta atodo o tipo de casos, reduzindo riscos e aumentando o sucesso. Desenvolvemos implantes adaptados a situações clínicas mais complexas. Adaptámos a técnica à possibilidade de ser planeada e guiada por computador, processo para o qual desenhámos peças específicas.

Inovámos na seleção dos materiais das próteses provisórias e definitivas para as tornar mais resistentes, mais estéticas e, se necessário, de mais fácil reparação.

Instituímos desde cedo um protocolo de manutenção de implantes, com consultas de

higiene oral anteriores e posteriores à cirurgia, o que porventura estará na base do nosso sucesso. Contudo, os princípios básicos da técnica mantêm-se: reabilitação total sobre quatro implantes em função imediata.

O JornalDentistry - Quais continuam a ser as principais dificuldades técnicas associadas à execução desta técnica?

 — Dr. Paulo Maló - Não existem dificuldades técnicas, desde que se siga o protocolo e se tenha experiência cirúrgica. Seguindo o protocolo, é sempre realizada tomografia axial computadorizada (TAC), que define o tipo de All-On-4® a ser realizado. Casos com maior quantidade de osso são naturalmente menos complexos (All-On-4® standard), enquanto casos com extrema reabsorção óssea posterior exigem implantes zigomáticos (All-On-4® híbrido e All-On-4® extra-maxila).

A escolha dos implantes também não é passível de grandes variações, já que se pretende conseguir estabilidade primária suficiente para a função imediata. A seleção criteriosa dos materiais adequados permite que essa estabilidade seja facilmente alcançada, mesmo em situações de osso de qualidade inferior. Já a utilização de implantes “alternativos” pode permitir, ou não, alcançar essa estabilidade.

Como em qualquer procedimento cirúrgico, o sucesso depende da conjugação do conhecimento técnico com a experiência clínica e com a criteriosa seleção dos materiais utilizados.

O JornalDentistry - A engenharia genética e de tecidos tem vindo a desenvolver investigação e desenvolvimento no sentido de que se possam regenerar dentes a partir da combinação de biomateirias, células estaminais e fatores de crescimento. Como antevê a evolução da medicina dentária, e da implantologia, nas próximas duas décadas?

 — Dr. Paulo Maló - Vejo o futuro com otimismo, embora não me pareça que a regeneração de dentes esteja para tão breve, provavelmente ainda teremos de esperar mais de 20 anos. Contudo, e porque a medicina dentária trata da reabilitação de órgãos (o dente é um órgão), a investigação em torno dos biomateriais é de extrema importância e muito evoluiu nas últimas duas décadas.

Já há algum tempo que se utilizam células estaminais em membranas de origem amniótica em várias áreas da saúde, como, por exemplo, no tratamento de feridas de difícil cicatrização em doentes diabéticos. Recentemente, estas células foram introduzidas na medicina dentária, com resultados bastante favoráveis.

Também não é novidade o papel do plasma rico em fatores de crescimento no processo de regeneração dos tecidos. Mas, para já, estes ainda não são elementos diferenciadores na implantologia e, a meu ver carecem, ainda, de mais investigação.

Na minha opinião, as grandes mudanças nesta área passarão muito mais pela digitalização, nas diversas fases do tratamento - diagnóstico, planeamento e execução. Passarão também, certamente, pela melhoria dos materiais utilizados nas próteses, com a eventual introdução de matérias usadas na aeronáutica e ainda pelo desenvolvimento de novos implantescom forma e superfície mais bem adaptadas às especificidades de cada caso clínico.

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