JornalDentistry em 2026-2-22

TENDÊNCIAS

Como funciona a Inteligência Artificial na Medicina Dentária

A introdução da Inteligência Artificial (IA) na Medicina Dentária não visa substituir o julgamento clínico, mas atuar como um copiloto de elevada precisão.

Para o médico dentista contemporâneo, a IA funciona como uma segunda opinião digital, rápida e consistente, mantendo-se o profissional como decisor clínico final.
 

 

A IA aplicada à prática clínica baseia-se sobretudo em Aprendizagem Automática, em particular em Aprendizagem Profunda (Deep Learning), e em Visão Computacional, que permitem aos algoritmos identificar padrões complexos em grandes volumes de dados clínicos e imagiológicos. O seu funcionamento na Medicina Dentária pode ser agrupado em três grandes pilares.

1 — Diagnóstico assistido por imagem (Radiologia)

Algoritmos treinados com milhares ou milhões de radiografias — periapicais, bitewings, panorâmicas e exames de CBCT — conseguem identificar automaticamente, entre outros:

Cáries proximais e oclusais

Lesões periapicais

Perda óssea alveolar

Cálculo dentário

Discrepâncias marginais de restaurações e próteses

O software sinaliza visualmente as áreas suspeitas, contribuindo para reduzir a fadiga visual e a variabilidade interexaminador, sem substituir a validação clínica e o juízo diagnóstico do médico dentista. O output deve ser entendido como sinalização ou hipótese diagnóstica complementar, e não como diagnóstico automático fechado.

 

2 —  Fluxo digital e reabilitação protética

Nos sistemas CAD/CAM, a IA pode:

Otimizar o desenho de restaurações indiretas.

Sugerir morfologias oclusais com base nos dentes adjacentes e antagonistas.

Segmentar automaticamente modelos digitais provenientes de scans intraorais.

Auxiliar no planeamento cirúrgico em implantologia, por exemplo através da segmentação automática de estruturas anatómicas (nervo alveolar inferior, seios maxilares, dentes e maxilares) em exames de CBCT

Estes sistemas aumentam a previsibilidade, reduzem a necessidade de ajustes oclusais manuais e melhoram a eficiência e integração do fluxo digital.

3—  Gestão clínica e monitorização

Ferramentas baseadas em IA podem:

Analisar o histórico clínico e indicadores de risco periodontal

Contribuir para a identificação mais precoce de padrões associados a falha implantar

Apoiar auditorias clínicas internas e monitorização da qualidade

Realizar triagem inicial automatizada e apoiar o agendamento e priorização de casos

É importante distinguir entre software de caráter sobretudo administrativo (gestão, faturação, agenda) e software de apoio ao diagnóstico e plano de tratamento, sendo este último considerado dispositivo médico.

 

Balizas éticas e legais
A implementação da IA em Medicina Dentária exige rigor técnico, ético e jurídico. O médico dentista deve conhecer os limites da tecnologia e o enquadramento regulatório em que exerce.

— Responsabilidade clínica:

A IA na Medicina Dentária é, em regra, classificada como Sistema de Apoio à Decisão Clínica (Clinical Decision Support System, CDSS). Nos termos da legislação europeia, a responsabilidade final pelo diagnóstico, plano de tratamento e atos clínicos é exclusivamente do médico dentista. A IA não realiza atos médicos — apoia decisões, oferecendo sinalização e hipóteses que devem ser integradas no raciocínio clínico e correlacionadas com exame objetivo e história médica.

— Regulamentação europeia (MDR e AI Act)

Na União Europeia, softwares que influenciam decisões diagnósticas ou terapêuticas são enquadrados como dispositivos médicos ao abrigo do Regulamento (UE) 2017/745 — Medical Device Regulation (MDR). Devem possuir marcação CE, sendo que muitas soluções de IA com impacto em diagnóstico ou tratamento são classificadas como dispositivos de Classe IIa ou superior, dependendo da finalidade clínica declarada e do risco associado.

Adicionalmente, o novo Regulamento Europeu da Inteligência Artificial (AI Act), em vigor desde 2024 com aplicação faseada, classifica como sistemas de alto risco os sistemas de IA que sejam dispositivos médicos de determinada classe de risco (nomeadamente Classe IIa ou superior) e influenciem decisões clínicas. Estes sistemas estão sujeitos a requisitos reforçados de:

Qualidade e governança dos dados de treino

Transparência e documentação técnica

Rastreabilidade e registo (logging)

Supervisão humana efetiva

Monitorização pós-comercialização e gestão de risco continuada

 

— Proteção de dados (RGPD) e cloud

Quando dados clínicos são processados em ambiente cloud, devem estar em conformidade com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). É recomendável, implementar medidas de anonimização ou pseudonimização sempre que possível

Garantir encriptação e alojamento seguro dos dados em servidores com níveis adequados de segurança e localização compatível com o RGPD

Formalizar contratos de subcontratação de tratamento de dados (Data Processing Agreements) com os fornecedores de software

A responsabilidade pela escolha do fornecedor e pela forma como os dados são tratados mantém-se do lado da clínica e do médico dentista responsável. Em consonância com o AI Act, a clínica deve ainda conhecer e acompanhar o desempenho do sistema em uso real, reportando eventuais incidentes ou desvios relevantes.

 

— Consentimento informado

O paciente deve ser informado, de forma clara, da utilização de tecnologias digitais e de sistemas de IA no seu diagnóstico, planeamento terapêutico ou monitorização. Recomenda-se a atualização dos formulários de consentimento informado para incluir referência explícita a ferramentas de apoio digital e de IA, bem como à forma como os dados são utilizados, armazenados e, se aplicável, anonimizados.

— Transparência e literacia digital

O médico dentista deve ser capaz de explicar, em linguagem acessível, o papel da IA na decisão clínica, incluindo as suas potencialidades e limitações. A tecnologia deve reforçar a confiança do paciente — por exemplo, através de relatórios visuais que evidenciem cáries, lesões ou perda óssea —, sem substituir o diálogo clínico, a anamnese e o exame objetivo.

 

Exemplos de soluções de IA com presença no mercado europeu
As soluções abaixo são exemplos ilustrativos de tecnologias de IA com foco em Medicina Dentária, cuja disponibilidade e enquadramento podem variar por país e versão de software. É sempre essencial confirmar a documentação de marcação CE, rótulo e classe de risco atualizados.

 

1 Apoio ao diagnóstico em radiologia

Pearl – Second Opinion®
Sistema de deteção assistida de cáries, cálculos, discrepâncias marginais e lesões periapicais em radiografias dentárias, comercializado como dispositivo médico com marcação CE.

VideaHealth – Videa Assist
Plataforma de análise radiográfica com certificação CE e FDA, focada na sinalização de alterações ósseas e lesões iniciais para apoiar o diagnóstico.

Manchester Imaging – AssistDent
Solução orientada para a deteção precoce de cáries de esmalte e dentina, com certificação CE para uso clínico e educativo.

 

2 Ecossistemas digitais integrados

Planmeca – Romexis®
Ecossistema de software que integra módulos de IA para segmentação automática de estruturas anatómicas em CBCT (por exemplo, nervo mandibular, seio maxilar, dentes, maxilares e vias aéreas), bem como ferramentas de planeamento cirúrgico e protético integradas.

exocad
Plataforma CAD orientada para prótese, que incorpora algoritmos capazes de sugerir desenhos protéticos adaptados à anatomia do paciente, integrando dados oclusais e morfológicos.

DentalMonitoring
Sistema de monitorização remota que analisa imagens e vídeos enviados pelo paciente via smartphone, apoiando o seguimento ortodôntico e outras situações clínicas através de sinalização de alterações entre consultas presenciais.

 

3. Gestão clínica, auditoria e análise

Newsoft DS / Imaginasoft
Plataformas nacionais que integram fluxos digitais, módulos de imagiologia e ferramentas de Business Intelligence, podendo incorporar componentes de IA para análise de indicadores clínicos e de gestão.

Overjet
Plataforma de auditoria clínica e análise de radiografias baseada em IA, já presente em vários mercados internacionais e em expansão progressiva para o mercado europeu, com foco em apoio a grupos de clínicas e seguradoras.

 

A IA é extremamente eficaz na deteção e análise de padrões imagiológicos e em tarefas repetitivas de análise de dados, mas não integra, por si só, o contexto biológico, sistémico e psicossocial do paciente. O seu verdadeiro valor reside na complementaridade com o raciocínio clínico humano, a experiência do médico dentista e o conhecimento do doente enquanto pessoa.

Para o médico dentista que pretende integrar estas ferramentas na prática clínica em Portugal, é essencial:

Verificar a certificação MDR e a classe de risco do software

Confirmar a conformidade com o RGPD e as políticas de proteção de dados

Manter supervisão clínica ativa e registo crítico do desempenho da IA

Atualizar os consentimentos informados, reforçando transparência e autonomia do paciente

Investir em literacia digital e formação contínua na utilização destas ferramentas

A Inteligência Artificial não substitui o ato médico — amplia-o, potenciando uma prática mais informada, eficiente e consistente, desde que colocada ao serviço do julgamento clínico e da relação médico-paciente.

 

 

 

Fontes: OJD e várias

Fotos: Gemini IA

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