JornalDentistry em 2025-10-11

TENDÊNCIAS

Metas na saúde: Quando o cuidado vira planilha

Não posso concordar com metas na área da saúde. Quando falamos de procedimentos clínicos, não há ética que sobreviva à lógica da produção em série

Ao escolhermos atuar na saúde, talvez não tenhamos compreendido de imediato a profundidade das responsabilidades que essa decisão carrega. Uma das mais importantes é que as nossas ações não podem ser guiadas unicamente pelo retorno financeiro. É claro que honorários dignos são justos e necessários, mas isso é muito diferente de premiar a produtividade com base no volume de intervenções, muitas vezes distantes das indicações clínicas mais apropriadas.
Metas pressupõem resultados, mas, na saúde, esse conceito pode desviar-se perigosamente. Estipular metas de produção pode significar ultrapassar os limites do bom senso clínico, conduzindo ao sobretratamento.
Metas podem, sim, ser éticas, quando dirigidas à melhoria do cuidado - reduzir o tempo de espera, melhorar o controlo de infeção, aprimorar a pontualidade e a experiência dos pacientes. O que assusta são as metas baseadas no número de implantes, cerâmicas, endodontias e procedimentos.
Quem as defende provavelmente não se sentiria confortável em ser tratado por alguém que precisa de “bater a meta do mês”.
 

“Imaginem metas na cardiologia, na oncologia ou na nefrologia.
Alguém aceitaria ser mais um número nessas especialidades?”

 

Imaginem metas na cardiologia, na oncologia ou na nefrologia. Alguém aceitaria ser mais um número nessas especialidades, só para ajudar a fechar a planilha de produção?
Talvez por o risco de morte ser baixo na odontologia alguns se sintam à vontade para transformar procedimentos clínicos em metas financeiras. Mas não se engane: ainda que o risco vital seja menor, toda a intervenção é invasiva e afeta um organismo vivo. E o que é alterado, nem sempre se recompõe em toda a sua plenitude.
Sonho com o dia em que todos os profissionais reflitam com profundidade sobre a real necessidade de cada procedimento. Sonho com uma saúde que trate pessoas, não que as transforme em ativos.
Talvez esse sonho não encontre espaço neste mundo onde a faturação do mês passou a ser o centro das atenções, o objetivo maior de quem se ocupa mais com números do que com a oportunidade de cuidar de quem nos confiou a sua saúde.
Mas continuo a sonhar. Os sonhos são particulares, já o direito de discordar, é de todos. Até à próxima.

 

 

 

Dr. Celso Orth Graduado em Medicina Dentária - UFRGS; MBA em Gestão Empresarial - Fundação Getulio Vargas; Educador Físico - IPARS; Membro Fundador da Academia Brasileira de Odontologia Estética; Membro Honorário da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética; Palestrante de Gestão na Prestação de Serviços na área da saúde; Reabilitador que trabalha em tempo integral na Clínica
Orth - Rio Grande do Sul - Brasil. Para enviar questões e solicitar esclarecimentos: [email protected]

 

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