JornalDentistry em 2023-6-17

EDITORIAL

Os (In) substituíveis

No mês em que as aulas terminam e as férias já se vislumbram, dei comigo a pensar que este ciclo de vida em que vivemos não é mais do que isso mesmo, as voltas que a terra dá em torno de si própria e do sol.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia

E o nosso dia-a-dia não é mais do que a alternância entre o sono e a vigília, entre o trabalho e o lazer. Lembro-me de ainda andar na esco- la primária e no Dia da Árvore ter plantado um pinheirinho no jardim da frente, junto com os meus coleguinhas de sala. Lembro-me de ter ficado com uma sensação cheia de dever cumprido e ter pensado para mim: “Já só faltam duas!”. Tinham-me dito então que o propósito da vida estava em plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. E eu com 9 anos levei esse ensinamento, exatamente à letra. Por isso só me faltavam as duas últimas... 

Hoje já plantei mais do que uma árvore. Também já escrevi um livro e tive uma filha maravilhosa. Mas, em 2023, o propósito da vida já não se mede assim. Mede-se em likes, seguidores e visualizações. Mede-se em número de podcasts, de canais de youtube e negócios online. O propósito da vida para os alunos que terminam este mês as aulas exige três coisas bem diferentes das dos anos 80. O propósito é ter um canal de youtube, um podcast e um negócio online. De preferência que lhes permita viver disso.

E não quero com isto dizer que estão errados ou que pensam mal. É a adaptação da espécie a novas tecnologias e descobertas. Mas isto implica necessariamente uma reformulação dos serviços e da função de cada um na sociedade. 

Possivelmente teremos, num futuro imediato, muito mais capacidade de recolher dados, consultar bibliografia, aplicar algoritmos e recolher dados para estabelecer diagnósticos mais precisos em medicina dentária. Mas teremos cada vez menos capacidade de executar tratamentos à cadeira. Saberemos que é preciso corrigir a falta de gengiva aderida com um enxerto do palato, mas não teremos clínicos treinados para o executar. Saberemos que é necessário colocar uma prótese da anca, e qual a melhor e o melhor timing para cada paciente em particular, mas não teremos equipas multidisciplinares que as executem.                                                

Teremos pequenas avarias nos eletrodomésticos, mas ninguém que os conserte. Saberemos que a fruta e os legumes são melhores para a saúde, mas ninguém que saiba plantar, fazer crescer e colher. Quando os eletrodomésticos avariarem compraremos novos, quando precisarmos de vitaminas e fibras tomaremos comprimidos e batidos. Quando precisarmos de ser cuidados e curados, saberemos o que precisaria de ser feito, mas não teremos ninguém que o faça. Pelo menos no mundo real, naquele em que o nosso corpo se move e respira. 

Creio até que a discussão que se coloca agora, com a possível perda da exclusividade dos médicos de prescreverem medicamentos, para os far- macêuticos que o poderão fazer, também, em situações clínicas de resolução aparentemente simples, deixará rapidamente de ser uma discussão. A Inglaterra já promulgou a possibilidade de os farmacêuticos fazerem prescrições simples.      Com isso libertam 15 milhões de consultas no SNS num período de 2 anos. Portugal pondera o mesmo.                                                      

Com a premissa que isso libertará os médicos (os cada vez menos médicos no ativo) para consultas mais importantes. Uma medida para tentar mitigar a falta de cuidados evidentes no SNS. Esta pertença ideia de integração multidisciplinar na operacionalização dos cuidados de saúde é, de facto, uma medida que já se exige há muito. No entanto, serve apenas de manto à verdadeira razão pela qual se põe agora à discussão: um sistema de saúde entupido sem capacidade de resposta. Mas não tardará muito para a inteligência artificial substituir os farmacêuticos e mesmo os médicos na prescrição. A inteligência artificial já ajudou a criar um novo antibiótico contra superbactérias. O que a inteligência artificial não fará é tratar. É operar a anca, fazer o enxerto, o transplante, o penso, a sutura.

Pode até pensar o processo todo e executar o produto, mas não intervirá no corpo do paciente que se move e respira neste mundo. Gosto de continuar a pensar que a medicina e a medicina dentária viverão do serviço ao outro, pela prevenção e pela cura. Impulsionadas pela inteligência artificial e executadas pela inteligência humana. A que se move e respira para além do youtube e que aprendeu a plantar árvores! 

 

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela Universidade Santiago de Compostela 

 

 

 

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