JornalDentistry em 2023-3-16

EDITORIAL

A mulher também precisa de dormir

Em março escolhemos, uma vez mais, sublinhar o papel da mulher. Não porque precisem, mas porque merecem. E como merecem! No dia 8 deste mês celebra-se o Dia Internacional da Mulher.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia

O número 8, que na sabedoria japonesa se entende como completo, e que se o deitarmos, se transforma em infinito (¥). Creio que não será por acaso que foi escolhido para celebrar a mulher. Nele relembramos ao mundo que há um trabalho de formiguinha persistente e resiliente só ao alcance das mulheres. Sei que é uma opinião suspeita, mas não são todas? 

Creio que temos muita sorte, nós as mulheres, mesmo com todas as dificuldades e contrariedades, em termos nascido em Portugal, neste país em que escrevo e em que me leem. Somos um país à beira-mar plantado, de brandos costumes, mas de mulheres guerreiras, que ficaram de corações apertados a ver filhos e maridos partirem à conquista de mares nun- ca dantes navegados e terras prometidas. Alguns destes genes devemos continuar a carregar, por certo. E se é verdade que o nosso epigenoma é moldado pelos nossos hábitos e comportamentos, então será talvez por isso que cada geração de mulheres portuguesas acrescenta um ponto na arte de ser mais, de dar mais, de fazer mais (como tiveram de fazer por si, pelos que ficaram e pelos que partiram na epopeia ida dos descobrimentos). 

Neste mês em que celebramos o Dia internacional da Mulher quisemos dar voz a algumas mulheres dentistas que também se têm destacado noutras áreas ou acumulado a medicina dentária com outras funções. Ainda esta semana, em conserva com um colega espanhol, ele me dizia que estava a pensar aumentar o número de gabinetes e ter mais valências interdisciplinares para responder às necessidades dos seus pacientes e me perguntava como é que eu fazia para dedicar tempo à gestão. Disse-lhe que a fazia entre consultas, porque, na verdade, a ideia inicial de dedicar uma tarde ou uma manhã por semana, não se mostrou exequível, pois são muitas as solicitações que vão caindo a toda a hora. Respondeu-me de imediato que isso de ser multitasking é só para as mulheres, que quando está em consultas, está em consultas. Pois, não sei muito bem o que é isso de ser multitasking, mas sei o que é ter de se ter uma organização primorosa dos vários chips que temos de trocar consoante a hora do dia. Quando somos mães, filhas, esposas, gestoras de casa, gestoras de clínicas, médicas-dentistas à cadeira, amigas, empregadoras ou docentes. E com tudo isto, pouco tempo sobra para sermos mulheres. Já para não falar do tempo que nos sobra para sermos mulheres livres. A verdade é que se perguntarmos às mulheres que tempo do seu dia tirariam aos outros para dedicar a si, quase todas teriam dificuldade em responder. Porque todos os chips estão encaixados que nem puzzles desde que o despertador toca até que a luz da cabeceira se volta a apagar e se inspira fundo com as omoplatas afundadas no colchão. E com sorte, o sono dessa noite será suficiente e reparador. Não há crianças pequenas ou idosos dependentes que nos acordem durante a noite. O trabalho do dia descansará à noite, tal como nós. O que nem sempre acontece... 

Assim, juntamos a mulher e o sono na rubrica de março. Porque tam- bém em março se celebra o Dia Mundial do Sono. Aparentemente sem ligação linear, estão mais ligados do que imaginamos. Há que cansar o corpo de dia para dormir melhor à noite, dizem-nos. Mas é daquelas verdades que só mais tarde percebes que não é universal. A higiene do sono é fundamental para que o peso das responsabilidades ou das expectativas não se manifestem de forma inversa no sono, tornando-o cada vez mais leve e raro. 

Mas não posso concluir este editorial sem lembrar que nem todas as mulheres do mundo têm a nossa sorte. A de nascerem livres para serem exatamente isso: mulheres livres. As atrocidades que se contam por esse mundo fora e que vêm à luz das notícias de vez em quando, fazem-me querer dar-lhes voz, dizer-lhes que contam, que são mulheres tal como eu e que um Dia Internacional é pouco para as fazer lembrar e valer os seus direitos. Que todos os dias sejam dias de celebrar as mulheres livres. Porque, as mulheres livres bastar-se-iam para ser tudo o resto que quisessem ser! 

 

Célia Coutinho Alves , Médica Dentista Especialista em Periodontologia pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela Universidade Santiago de Compostela 

 

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