JornalDentistry em 2024-5-16

EDITORIAL

Para o bem dos que lidera!

Este mês de maio antecipo que venha a ser um mês importante para a medicina dentária portuguesa. Digo importante porque considero importante poder escolher quem nos lidera, representa e dignifica.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia

Já começou a campanha eleitoral para o novo ciclo de 4 anos da nossa Ordem. Desta vez, e pela primeira vez na história da Ordem dos Médicos Dentistas, o voto poderá ser eletrónico. Um avanço, quanto mim, prometido, é certo, mas que me deixa contente pela sua operacionalização. Esta opção é mais inclusiva e, por isso, mais democrática.
Mas em maio comemora-se também o dia da saúde periodontal. A doença periodontal é já a doença crónica não transmissível mais preva- lente em todo o mundo! Mas ainda está muito subdiagnosticada, o que obriga a que o tratamento tenha de ser ainda mais interventivo do que preventivo. Eu sei que salvar dentes até pode ser politicamente correto, mas não faz belas fotos. Digo isso porque cada vez mais se parece confundir o cuidado ao paciente com o colecionar de casos publicáveis. Vejo cada vez mais trabalhos realizados para a fotografia e não para o paciente. Porque o paciente não beneficia de melhor função, maior longevidade e, às vezes, nem melhor estética, mas já a fotografia feita com afastadores, flashes e programas de imagem, essa faz de cada fotógrafo de gabinete um médico dentista e tanto.
Gostava mesmo que os médicos dentistas se especializassem na pre- venção da doença, mas enquanto isso não é possível, então que, pelo menos, olhassem para o paciente como um todo e a cavidade oral no seu todo. Gosto de pensar em médicos dentistas especialistas em diagnosticar a doença mais do que o sintoma. Ver a doença para além do sintoma, para além das belas fotos que aquele caso pode dar. Vimos a correr o risco de esquecer o que está por trás da abrasão de colo, da perda do ponto de contacto, da dor à percussão. Às vezes temo estarmos a formar excelentes profissionais centrados em resultados e com muito pouca paciência para o processo. O resultado é sempre o que resulta do processo, não surge por magia, mas pondo trabalho e dedicação. Esforço. E continuar repetindo os processos, para os melhorar, otimizar e diminuir os erros.
Ainda hoje, ao ouvir o presidente da Hasbro, João Nielsen Sebastian, percebi que costuma dizer às suas equipas que “se não estamos a errar então é porque não estamos a tentar o suficiente”. Na minha vida profis- sional, foram os casos onde falhei os que mais me ensinaram. Posso dizer mesmo que houve um que mudou a forma como abordo as recessões gen- givais unitárias na região antero-inferior. E tenho a certeza de que muitos colegas têm pelo menos um caso destes, em que o erro determinou o sucesso futuro quando o processo foi otimizado. Eu sei que a sociedade em que vivemos e desenvolvemos trabalho procura apenas resultados, mas a chave para o sucesso do resultado está na obstinação do processo, na repetição que treina a mão, na perseverança que aguça o engenho e a capacidade de tomar decisões.
A capacidade de decidir bem, num clínico, bem como num líder, é capaz de ser a capacidade que mais pode influir os resultados que deles advêm. Depois de ouvir o paciente, de analisar os exames clínicos e auxiliares, a decisão certa no timing certo é o processo mais curto e assertivo para obter o resultado que beneficia o paciente. Depois de ouvir os colegas, de conhecer os dossiês e de falar com as pessoas que falam com as pessoas, as que estão no terreno a enfrentar os problemas, um líder deve deci- dir bem. Decidir bem é decidir pelo menor prejuízo em favor do melhor resultado. Mesmo que isso signifique menos fotografias bonitas ou menos votos a favor. Porque um líder lidera todos mas decide sozinho. Mas sempre para o bem dos que lidera!

Boas leituras!

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela Universidade Santiago de Compostela

 

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OJD 117 MAIO 2024

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