JornalDentistry em 2025-12-20

ARTIGOS

Uma nova forma de prevenir doenças gengivais sem eliminar as bactérias benéficas

Os cientistas estão a descobrir uma forma surpreendente de influenciar as bactérias — não as matando, mas alterando a forma como se comunicam.

Investigadores que estudam bactérias orais descobriram que a interrupção dos sinais químicos utilizados nas “conversas” bacterianas pode direcionar a placa bacteriana para comunidades mais saudáveis ​​e menos nocivas. A descoberta pode abrir caminho a novos tratamentos que previnem doenças, mantendo um microbioma equilibrado em vez de eliminar completamente as bactérias.

Todos os organismos vivos se adaptam para sobreviver, e as bactérias não são exceção. Ao longo de muitas décadas, algumas bactérias tornaram-se gradualmente resistentes aos antibióticos e aos desinfetantes amplamente utilizados, criando sérios desafios para a medicina e a saúde pública.

Ao mesmo tempo, inúmeras espécies bacterianas desempenham um papel útil e, muitas vezes, crucial na manutenção da saúde do corpo humano. Isto levanta uma questão importante. Em vez de tentar eliminar as bactérias, poderiam os cientistas encontrar formas de influenciar o seu comportamento para reduzir as doenças e melhorar a saúde?

As bactérias estão longe de ser silenciosas. Dentro da boca humana, cerca de 700 espécies bacterianas diferentes trocam informações constantemente através de um processo chamado deteção de quórum. Esta comunicação química permite que as bactérias coordenem as suas ações em grupo. Muitas bactérias orais dependem de moléculas sinalizadoras conhecidas como N-acil-homoserina lactonas (AHLs) para enviar e receber estas mensagens.

 

Investigar a comunicação bacteriana na placa dentária

Investigadores da Universidade de Minnesota, do Twin Cities College of Biological Sciences e da Faculdade de Medicina Dentária, propuseram-se explorar a forma como as bactérias na boca comunicam e se esta comunicação poderia ser deliberadamente interrompida.

O seu objetivo era determinar se interferir com estes sinais poderia ajudar a prevenir a acumulação de placa bacteriana e promover um microbioma oral mais saudável. As descobertas, publicadas na revista npj Biofilms and Microbiomes, sugerem que esta abordagem pode reformular a forma como os médicos pensam sobre o tratamento de doenças bacterianas.

 

Principais Descobertas do Estudo

Os investigadores descobriram vários padrões importantes na forma como as bactérias orais comunicam e se organizam:

• As bactérias na placa dentária geram sinais de AHL em zonas ricas em oxigénio (como acima da linha da gengiva), e estes sinais podem ser detetados por bactérias que vivem em regiões pobres em oxigénio (abaixo da linha da gengiva).

• A eliminação dos sinais de AHL utilizando enzimas especializadas denominadas lactonases levou a um aumento das espécies bacterianas associadas a uma boa saúde oral.

• Estes resultados indicam que enzimas cuidadosamente seleccionadas podem ser utilizadas para remodelar as comunidades da placa dentária e ajudar a manter um equilíbrio saudável de microrganismos.

 

A Placa Dentária como Ecossistema Vivo

"A placa dentária desenvolve-se numa sequência, muito semelhante a um ecossistema florestal", disse Mikael Elias, professor associado da Faculdade de Ciências Biológicas e autor sénior do estudo. "Espécies pioneiras como Streptococcus e Actinomyces são os primeiros colonizadores em comunidades simples — são geralmente inofensivas e associadas a uma boa saúde oral.

Colonizadores tardios cada vez mais diversos incluem as bactérias do 'complexo vermelho', como a Porphyromonas gingivalis, que estão fortemente ligadas à doença periodontal. Ao interromper os sinais químicos que as bactérias utilizam para comunicar, seria possível manipular a comunidade da placa bacteriana para que esta permaneça ou regresse ao seu estádio associado à saúde."

"O que é particularmente impressionante é a forma como a disponibilidade de oxigénio muda tudo", disse o autor principal, Rakesh Sikdar. "Quando bloqueamos a sinalização de AHL em condições aeróbicas, observamos mais bactérias associadas à saúde. Mas quando adicionamos AHLs em condições anaeróbicas, promovemos o crescimento de colonizadores tardios associados à doença. A comunicação intercelular (quorum sensing) pode desempenhar papéis muito diferentes acima e abaixo da linha da gengiva, o que tem implicações importantes para a forma como abordamos o tratamento das doenças periodontais."

 

"O quorum sensing pode desempenhar papéis muito diferentes acima e abaixo da linha da gengiva, o que tem implicações importantes na forma como abordamos o tratamento das doenças periodontais." Em direção a novos tratamentos baseados no microbioma

Os investigadores planeiam examinar em seguida como a sinalização bacteriana difere em várias regiões da boca e entre pacientes em diferentes fases da doença periodontal. "Compreender como as comunidades bacterianas comunicam e se organizam pode, em última análise, fornecer-nos novas ferramentas para prevenir a doença periodontal — não travando uma guerra contra todas as bactérias orais, mas mantendo estrategicamente um equilíbrio microbiano saudável", disse Elias. A equipa acredita que esta estratégia poderá eventualmente levar a terapias para outras partes do corpo, onde os desequilíbrios no microbioma estão ligados a doenças e a certos tipos de cancro.

O financiamento para a investigação foi fornecido pelo  National Institutes of Health (NIH).

 

 

Fonte: University of Minnesota, Twin Cities. / ScienceDaily

Foto: Unsplash/CCO Public Domain

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