JornalDentistry em 2025-12-16

EDITORIAL

Vivemos numa sociedade retalhada

Dezembro é o mês do Natal e, por isso, também o mês em que mais abrimos o coração. É o mês das festas dos mais pequenos e dos presentes, dos convívios em família, dos jantares de Natal. Há quem diga que este espírito devia permanecer durante o ano inteiro.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia.

Mas para isso não pode ser só um espírito, uma inspiração. Tem de ser uma atitude, um hábito de carácter.
Esta semana ouvi uma frase que encaixa nesta reflexão: “Good houses are made from good people” – em português, as boas casas são feitas de boas pessoas.

Estamos numa sociedade retalhada em que se olha para os serviços como uma folha de Excel onde temos de encaixar números, multiplicá-los, fazê-los render. As pessoas já não são pessoas. Os idosos são números de pensionistas. Os médicos são números para preencher escalas. E perguntamos porque é que a Humanidade se refugia num mundo de redes sociais digitais. Porque é que saímos de casa podendo esquecer-nos de tudo menos do telemóvel.

E os avanços tecnológicos tendem a pôr-nos num caminho onde o que é bom é o que é tecnologicamente avançado.                              E esquecemo-nos que são, pelo menos para já, as pessoas que operam os sistemas. Que os sistemas, mesmo os mais inteligentes e avançados, precisam de estímulos, precisam, no mínimo, de quem ligue o computador à corrente elétrica ou à fonte de alimentação.

E não há sistemas que nos valham, quando não temos pessoas boas para os operar.
Isso é válido na nossa relação com as várias experiências e necessidades com que nos vamos confrontando no dia-a-dia. No restaurante a que vamos, no mecânico onde deixamos o carro, no cabeleireiro, no serviço de urgências ou no médico dentista.           

As boas casas sempre foram feitas de boas pessoas. Neste Natal vejo-me a revisitar os mesmos sítios, a comprar nos mesmo sítios, a mantar as tradições. As melhores casas são mesmo aquelas que têm as melhores pessoas lá dentro. Nem sempre as mais bonitas por fora ou mais bem vestidas. Mas as mais bonitas por dentro.

Não só no Natal, mas no ano inteiro. Estando na área da saúde, na prestação de cuidados de saúde, acolho este tema com particular carinho. O acolhimento diferenciado, o cuidado ao paciente que vai muito para além da cavidade oral.

Vivemos numa sociedade retalhada, com cada vez mais problemas de saúde mental, que se refletem, também, cada vez mais na sua saúde oral.
Trato cada vez mais pacientes com periodontite em que esta condição crónica já não é o mais difícil de controlar. É a falta de atenção que sentem.
O desamor, a solidão ou o assoberbamento pelo quotidiano. E notar isso, é já metade do tratamento. Tento fazer a minha parte, estando atenta. De coração aberto. Não só no Natal. Votos de Boas festas a todos!

 

 

 

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela
Universidade Santiago de Compostela

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