JornalDentistry em 2025-11-22

EDITORIAL

A Saúde Oral tem de ser a Saúde Geral

Atrevo-me a escrever que a medicina dentária portuguesa está a precisar duma magistratura de influência.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia

Esta é uma expressão que temos ouvido muito nos últimos tempos, a propósito do papel presidencial e das suas competências fora do sistema político executivo. Aparecer no sítio certo, visitar as instituições no tempo certo para as fazer notar, para se falar delas, chamar atenção para o problema ou aparecer a exigir soluções pode ser uma forma de pressionar o sistema. E o sistema, no que respeita à saúde oral dos portugueses, continua adormecido, por acordar.

Há quem abane o sistema por dentro. Tente, institucionalmente, chamar, continuamente, a atenção do sistema pelas vias prováveis - as que institucionalmente estão abertas. Participando em reuniões, trabalhando afincadamente em cadernos de encargos, com medidas certas e ajustadas, medidas desejáveis e há já muito exigíveis. Fazendo o paralelismo para o que já se faz “lá fora”, nos nossos congéneres europeus. Fazendo o ponto de situação entre o que se prometeu e ainda não se cumpriu. Mas temo que não podemos mais esperar resultados diferentes utilizando os
mesmos métodos.

Há que trazer, de novo, a boca para dentro do corpo. A saúde oral tem de ser a saúde geral. E é imperativa a exigência de que seja tratada com a importância que tem no global humano do que somos. Só quando a classe, ela própria, entender que não pode ser de outra maneira e não se resignar por menos, pode a população em geral começar a insurgir-se pela ausência dos cuidados primários nesta área. E não há melhor magistratura de influência do que uma população indignada! Veja-se o que faz decidir uma população indignada com o número de partos nas ambulâncias ou as mais de 18h de espera numa urgência hospitalar. Veja-se quem pode mais. Um vídeo numa rede social, de uma amiga de uma paciente grávida a repor a verdade ou um chefe de administração hospitalar que não se informou completamente.

Sou e sempre serei a favor dos canais legais e da diplomacia institucional. Mas juntá-los à magistratura de influência de uma população exigente e informada, pode ser o fator que desequilibra. O fator desbloqueador do sistema. Afinal, sempre puderam mais três ou quatro milhões de votantes do que 15.000 médicos dentistas. É uma questão de números, e todos sabemos que, no final de contas, pode mais quem paga mais. No final de contas, manda mais quem pode mais.

Mais investimento na saúde oral contribuirá para uma poupança nos gastos na saúde geral. Essa é uma verdade inabalável que ajudará na famosa gestão controlada de gastos que foi pedida às administrações hospitalares. Tratar doentes com menos patologias crónicas, como a diabetes ou as doenças cardiovasculares ou agravamento das suas fases agudas ou complicações, é poupar em muitas frentes. O doente mais caro de tratar para o SNS é o doente crónico, o que necessita de mais tempo de tratamento e de tratamentos mais complexos com o tempo. Melhorar a saúde oral (geral) é ganhar em tempo útil de trabalho ativo e produtivo de uma população que deixa de trabalhar muito antes do que poderia, que contribui menos e depende mais e muito mais cedo.

Da boca da secretária de Estado da Saúde na cerimónia de abertura do 34º congresso da OMD realizado este mês de novembro, não ouvi nada de novo. E do Presidente da Assembleia da República que veio ao congress exercer a sua magistratura de influência, só ouvi palavras vãs. Só quando o executivo sentir os votos a fugir-lhes nas urnas, será verdadeiramente influenciado. E a boca dos portugueses poderá, finalmente, voltar para dentro do corpo!

 

 

 

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia
pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela
Universidade Santiago de Compostela

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