JornalDenmtistry em 2026-3-24
Escrevo este editorial no Dia Internacional da Mulher. Gosto de ser mulher. Bem sei que ter nascido mulher não tem nada de mérito meu, mas se pudesse escolher, teria escolhido nascer mulher.
Nunca senti, ou pelo menos nunca tive a perceção, de alguma vez o facto de ser mulher me obrigar a encolher para caber em algum lugar, em alguma sala, em algum cargo ou função. Mas também não facilitou.
Da biologia celular sabemos que somos metade DNA do pai e metade DNA da mãe. Há, no entanto, uma exceção. O DNA de todos as mitocôndrias celulares de todas as células do corpo humano, de todas as mulheres, mas também de todos os homens é 100% materno. Só a mãe contribui para a criação do organelo celular responsável pela energia da célula. E não pode ser por acaso, pois a natureza não deixa nada ao acaso. Selecionar um DNA resiliente, forte, maduro, determinado, com uma gigante capacidade de
trabalho e adaptação, parece ser a escolha certa para um órgão que não pode parar. Que mantém cada célula viva e ativa para a sua função. Todos os dias.
Nos bons, mas também nos maus. Sobretudo nos maus.
Em janeiro tínhamos definido a palavra “consistência” para este ano de 2026. E a consistência de aparecer para fazer o trabalho, de dizer presente, de perceber que ninguém sabe sempre tudo, mas não se importar de errar tentando, são características que admiro em muitas mulheres que me inspiram. E o que mais me inspira não são os seus sucessos ou as suas conquistas. Mas a energia que põem na consistência com que nunca desistem.
Mesmo que não vejam o propósito imediato do que dão. Mesmo que não tenha retorno. Mesmo que não seja publicável. O trabalho de formiga que permite que a casa não caia, os filhos cheguem ao colégio a horas, o frigorífico esteja cheio e a roupa passada.
Ao que se junta a reunião via zoom já depois deles se deitarem, do e-mail que precisa de ser respondido até à meia-noite ou o slide introduzido na aula das 9h da manhã.
A energia dos homens até pode ser grande, vinda ela das mitocôndrias maternas. Mas a gestão dessa energia é eximia nas mulheres. As prioridades no sítio certo é o que importa mais nessa gestão da energia. O foco, a atenção. A neurociência já veio esclarecer que não existe, no cérebro, a capacidade de multitasking, definindo-se multitasking como a capacidade de executar várias tarefas ou gerir diversas responsabilidades ao mesmo tempo, ou alternar entre elas rapidamente.
Enaltecer a mulher nunca desprestigia o homem. Até porque todos nasceram de uma. E nesta edição, a presença da mulher surge em lugares de destaque: na presidência de comissões organizadoras de congressos, como conferencistas, em meetings internacionais, como CEO nas várias vertentes da medicina dentária. Para a sociedade atual, a mulher nunca tem o estilo de liderança certo. Se liderar é difícil, liderar no feminino é ainda mais exigente. Mas nós não desistimos. Perseveramos com consis-
tência.

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela
Universidade Santiago de Compostela