JornalDenmtistry em 2025-9-21
Estamos de regresso! E que bom é estar de regresso! Às vezes nem percebemos o valor de estar de volta. Das coisas estarem no mesmo lugar. À nossa espera. Claro que o recomeço pós-férias traz sempre novos desafios - às vezes reajustes, repensar estratégias, investimentos. Mas poder voltar a “casa”, ao porto seguro, torna o valor da “viagem” ainda mais compensador.
Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia.
As férias também são precisas. Mesmo que às vezes, com o cortisol alto
que a rotina do dia-a-dia nos impõe, achemos que não precisamos delas.
Há quem veja as férias como o tempo necessário de reset, de recarregar
energia, de fazer coisas diferentes e visitar sítios novos. E há quem veja
as férias como o mínimo indispensável. Aquele tempo em que se fatura
menos e se paga a dobrar, em que desequilibramos contas e ajustamos
horários de funcionamento. Depende do mindset de cada um, mas tam-
bém das suas responsabilidades na profissão.
Eu costumo valorizar as férias. Entendo-as como um direito e um dever
fundamental para quem, com dedicação e empatia, tenta equilibrar várias
bolas no ar durante o ano de trabalho. Mas a verdade é que não as orga-
nizo com o devido valor que elas têm: o de parar. Parece que parar, não
fazer planos, não marcar nada na agenda, é uma perda de tempo... tam-
bém nas férias. Mas não. Parar é absolutamente essencial. Se não fosse,
não teríamos necessidade de dormir uma parte substancial do nosso dia.
A verdade é que, às vezes, ainda aceleramos mais durante as férias, ten-
tamos encaixar os desejos e os sonhos, as viagens e as experiências todas
neste período. Queremos estar com todos os que não estamos durante o
ano, fazer tudo o que o horário da agenda apertada não permite durante
os outros meses.
Este ano, em que comemorei 25 anos de médica dentista, aprendi que
parar não é o mesmo que abrandar. Sobretudo quando temos 25 anos de
consultas nas costas. Parar é absolutamente essencial quando começamos
a valorizar o que o corpo nos diz. Quando começamos a tratar o corpo
como se só tivéssemos um, porque só temos mesmo! Temos uma profis-
são técnica, com postura de trabalho em contratura constante, quer pela
posição, quer pelo controlo constante do stress gerado em clínica. Normal
para quem trata pacientes com queixas, dor e expectativas. E saber parar
é muito melhor que ser obrigados a parar. Permitir-se parar vem antes da
rutura, porque se não escolhemos parar, algum dia o universo escolhe por
nós. E bem.
E num tempo em que a saúde mental vem primeiro, perceber que o
corpo não serve apenas para transportar a cabeça é verdadeiramente
importante. Num tempo em que suplementamos tudo para aumentar a
performance, é essencial perceber que a taxa de utilização sem descanso
pode levar à fadiga - aquela que pode anteceder a rutura. E infelizmente,
este mês de setembro, num contexto trágico, aprendemos isso mesmo,
também aplicado a cabos de aço. E se não há redundância, se não há outro
corpo, parar para o descansar não é igual a somente abrandar o ritmo.
Pode fazer a diferença entre repor os limites da tensão a que terá de ser
novamente sujeito, ou o de acumular fadiga, atrás de fadiga. Antecipando
a rutura. É só uma questão de tempo. Só uma questão do número de vezes
a que o cabo está sujeito à tensão máxima sem descanso.
E porque há quem diga que o setembro é o novo janeiro, que saibamos
iniciá-lo ouvindo o corpo, fazendo pausas e sabendo que dizer não é já
uma frase completa. Com respeito, por nós e depois pelos outros!

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia pela OMD, Doutorada em Periodontologia pelaUniversidade Santiago de Compostela