JornalDentistry em 2025-7-18
No mês passado estive em Boston, nos Estados Unidos, num dos congressos de periodontologia, implantes e reabilitação de onde mais sinto que trago novidades e aprendo. Só se realiza de três em três anos, sempre no mesmo hotel, e é organizado pela Quintessence, a editora da revista International Journal of Peridontics and Restorative Dentistry.
Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia.
Não tinha ido à última edição, mas tinha lá estado há seis anos. Estão lá sempre representados os gurus, as referências mundiais nestas áreas, seja americanos ou europeus. As conferências são eminentemente clínicas, de 45 minutos no máximo, onde cada mestre deposita o sumo e a nata do seu melhor trabalho. Para mim, serve também para me nivelar. Perceber se estamos muito atrás ou a acompanhar o progresso. Ou, até, se estamos à frente em algum procedimento, técnica ou visão.
A verdade é que desde 2004, a primeira edição em que participei, que venho sempre de lá muito motivada. Trago sempre alguns truques de algibeira, comparo em tempo real diferentes abordagens clínicas para o mesmo problema, revejo amigos, aguço a motivação e valido-me. Funciona quase como um diapasão para acertar o passo dos avanços da ciência emda técnica nesta área.
Este ano não foi exceção. A exceção foi que o Chairman do simpósio já não era os mesmo. O Dr. Myron Nevins, editor chefe da revista e Chairmanmdo simpósio, com 87 anos, tinha-se retirado. A qualidade científica esteve indubitavelmente assegurada, sem nenhum reparo. Mas o ambientemfamiliar dos corredores já não era o mesmo. E fez-me mesmo pensar que mesmo não sendo eternos, a marca que deixamos no fazer bem pode eternizar-se. E não há dúvida que a marca deixada pelo Dr. Myron Nevinsmnas raízes da revista e do congresso se vão perpetuar.
Gostei de ouvir as novidades, mas também gostei de ouvir algumas lições de quem tem um percurso na periodontologia e nos implantes com mais de 40 anos. O Dr. Eric Van Doren mostrou-nos, a dada altura da sua conferência, um slide de fundo brando e letras pretas: “The lesson: maybe teeth age better than implantes”. Talvez a fase da medicina dentária extracionista já esteja a passar. O boom da osteintegração tem dado lugar nestes 40 anos, ao boom da peri-implantite. Os implantes perdem-se mais do que os dentes. Mais do que os dentes comprometidos periodontalmente quando estabilizada a doença crónica. Envelhecem pior que os dentes, porque não têm attachement, não têm tecidos de suporte como o ligamento periodontal, a gengiva e o cemento radicular. Têm apenas osso e uma mucosa com fibras organizadas paralelamente à sua superfície.
Mas durante muitos anos ofereceram-se como sendo a melhor terapia reabilitadora. E se nos casos em que é para devolver um sorriso já perdido podem mesmo ser, noutros, em muitos outros casos, de pacientes peridontalmente com perda de inserção, apresentaram-se, muitas vezes, como a melhor terapia a implementar nem sempre sendo. E vimos muitos desses implantes perderem-se antes de dentes que aparentemente estavam comprometidos. O implante é um tratamento fim de linha. Não é melhor que um dente com perda de inserção estabilizado periodontalmente. Pelo menos, é o que o tempo nos tem vindo a mostrar. Pelo menos, para os que que querem acreditar nisso. Pelo menos, para os que gostam de salvar dentes. Boas férias!.
Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia
pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela
Universidade Santiago de Compostela¢¢