JornalDentistry em 2025-10-19

EDITORIAL

Teremos mais a aprender com as máquinas ou elas connosco?

Vivemos tempos desafiantes, em que tudo é medido e a moeda de troca são dados. Os que podem mais são os mais rápidos a analisar dados e a dar a resposta. Os mais poderosos são os que possuem mais dados, os que os conseguem medir, e sobretudo, colocá-los a interagir connosco.

Célia Coutinho Alves, DDS, PhD, médica dentista doutorada em periodontologia

A inteligência artificial veio para ficar e potenciar esta interação. São colchões que ajustam a temperatura consoante o período do sono em que estamos, automóveis que ajustam a climatização ao perfil de cada condutor, auriculares que ajustam o nível de volume ao ruído exterior, etc.

Estamos constantemente a ser monitorizados para sermos otimizados.
Essa é a história da evolução humana. Homens a criar utensílios, máquinas, tecnologia em favor de uma melhor adaptação e aquisição de novos skills que anteriormente não possuíam.

É assustadora a forma como um motor de busca inteligente consegue
retirar dados nossos, medi-los, analisá-los e interagir connosco na exata medida de nos potenciar o desenvolvimento de novas estratégias para a aquisição de conhecimento e de novas competências. Não demorará muito tempo ao ensino dos cursos técnicos, nomeadamente o nosso, poder usufruir dela. Não no sentido da investigação ou pesquisa e composição de informação escrita, como aliás já faz.       

Mas no treinamento técnico à cadeira. Falo da possibilidade de incorporar câmaras e sensores a instrumentos mecanizados e não só, que utilizamos, para recolher dados, medi-los e analisá-los e assim dar um feedback de treino à mão que os executa.
Tal como se faz na análise do treino de um nadador ou de um velocista se ajusta o ângulo de entrada da mão na água ou a altura a que se eleva o joelho na passada.

Claro que o mais importante vai continuar a ser o diagnóstico. Saber exatamente qual o problema e o que o causou para o poder corrigir.                                                                       

 E nisso a recolha de dados e a gestão de probabilidades por sistemas inteligentes será uma ajuda fundamental. Mas não decisiva. Continuo a pensar que o desempate será sempre analógico. Que a redundância de sistemas terá de ser analógica. E que o bom senso é uma característica humana difícil de ensinar à máquina. Embora receio que, no futuro, teremos mais a aprender com as máquinas do que elas connosco.
O potencial que se nos apresenta o mundo da inteligência e dos sistemas geridos por inteligência artificial é inimaginável. Mas por enquanto, a transmissão de saber, na nossa área, ainda se faz muito pela transmissão dos que vão à frente.

Não porque são mais velhos, ou estudaram mais. Mas porque estiveram dispostos a falhar mais vezes até conseguir. A fazer o trabalho. A não desistir. A trabalhar com o foco no bem-estar do paciente. Sempre esse à frente dos outros todos.

Mas não há dúvida que aprendemos cada vez mais rápido. Cada vez mais à nossa medida, ajustando os mecanismos neuronais de cada um a uma forma personalizada de buscar e absorver a informação. E será exponencial. 

Mas, para já, neste mês de outubro retomam, a todo o vapor, os anos letivos académicos, os congressos nacionais, as agendas a tempo inteiro. E as lutas da classe, o desgoverno no sistema nacional de saúde e a tentativa de fazer omeletes sem ovos.

Pode ser que a resposta esteja na automação dos processos. Que as máquinas que aprendem ainda mais rápido que nós, possam sobrecarregar-se da gestão dos dados, para que nós nos possamos dedicar a interagir connosco melhor do que elas algumas vezes conseguirão.  Já tenho as minhas dúvidas... 

 

Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia
pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela Universidade Santiago de Compostela

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